quinta-feira, 16 de agosto de 2012


                          


CAETANO JOSÉ MUNHOZ-
UM REPRESENTANTE  DA ELITE PARANAENSE DO SÉCULO  XIX

                                                                     

                                                                       por Domingos van Erven



Este blog destina-se a divulgar a monografia cujo título consta acima. 

           Um volume, contendo seu texto, também poderá ser adquirido no site:  
www.agbook.com.br/book/139484--CAETANO_JOSE_MUNHOZ 

           As postagens correspondem às diversas partes desse trabalho, estruturado de acordo com o seguinte                               

                                            SUMÁRIO

1. INTRODUÇÃO
                                      
2. CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS

3. ANTECEDENTES

3.1-Paranaguá em 1817
3.2-Origens familiares
3.3-CJM: nascimento e infância em Paranaguá
3.4-Curitiba em 1834

4. O ERVATEIRO                               

5. VIDA PÚBLICA
             
 5.1- Comandante da Guarda Nacional
 5.2- O político  
 5.3- Juiz municipal substituto
 5.4- Participação na vida comunitária
      
6. VIDA PRIVADA: A FAMÍLIA
 
   6.1- O 1º casamento
   6.2- Os filhos do 1º casamento
   6.3- Locais de residência
   6.4- O 2º casamento e seus filhos
   6.5- Os irmãos (e cunhados) de CJM
   6.6- Bento Florêncio Munhoz
   6.7- Escravos da família
   6.8- Falecimento de CJM  
  
7. TRÊS DESTAQUES FEMININOS

  7.1- Narcisa de Paula Xavier Munhoz
  7.2- Maria do Céu Taborda Munhoz
  7.3- Francisca Munhoz    
 
8. CONTRAPONTO: O CONTÍNUO/PORTEIRO FIDÊNCIO MUNHOZ
   
9. CONSIDERAÇÕES FINAIS  
           
10. BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

Duas imagens de Caetano José Munhoz (1817-1877):


 Fonte: Nicolas, Maria- "130 Anos de Vida Parlamentar Paranaense 1854-1984". Curitiba: Assembleia Legislativa do Paraná, 1984, p.73;

 Fonte: "Revista Paulista de Indústria" v.3, nº 17, 1953- edição especial: "O Paraná e suas Indústrias". 




1. INTRODUÇÃO


Meu interesse, neste estudo, consiste em investigar a vida de um personagem relevante no desenvolvimento da economia do mate no Paraná, e também a dos seus familiares, tanto ascendentes como descendentes, de modo a ampliar o conhecimento não só sobre eles mas também da sociedade paranaense de que fizeram parte.   

O mate foi a atividade econômica preponderante em certo período da nossa história. Representou em boa medida a base material da sociedade/civilização que se constituiu neste pedaço do território brasileiro. Essa atividade predominou por mais de cem anos, a partir da terceira década do século XIX, durante todo o Império (e algumas décadas além dele), tendo sido decisiva para a própria constituição do Paraná como entidade política independente. Durante esse período o Paraná dependeu fundamentalmente da exportação do mate para o seu progresso, fonte de renda para o setor privado e de receita para o governo.

O tenente-coronel (da Guarda Nacional) Caetano José Munhoz, doravante CJM (1817-1877) foi um dos primeiros a implantar engenho de erva-mate no planalto curitibano, em 1834, movido a energia hidráulica. Até então eles só existiam no Litoral (1). Destacou-se nessa atividade econômica a partir daí, durante quatro décadas, até falecer, em 1877. Destacou-se também pelo espírito inovador: foi o primeiro a instalar engenho movido a vapor em Curitiba, em 1872, antes mesmo do Barão do Serro Azul. Após a morte, seus engenhos e marcas registradas foram vendidos a outras empresas.

Conhecer a vida de CJM, e também de seus familiares, é conhecer a vida de representantes da elite daquela sociedade cujo fundamento econômico era o mate (essa elite também já foi chamada de burguesia do mate). Como decorrência da posição de CJM no âmbito do sistema produtivo, ele ocupou também posições sociais de relevo, ainda no tempo da 5ª comarca da província de São Paulo (promotor público interino, major da Guarda Nacional). CJM tinha 36 anos quando o Paraná emancipou-se de São Paulo, em 1853. Assim ele tanto pertence à 5ª. Comarca como à província do Paraná. Com a emancipação, a cidade de Curitiba, que contava então quase 7 mil habitantes (e o “termo” de Curitiba, 21 mil), torna-se capital da nova província do Império, vencendo a disputa com Paranaguá. 

Meu interesse básico estará voltado para as circunstâncias concretas da trajetória de vida de CJM, a partir de menções feitas a ele nas fontes disponíveis --- referências na historiografia paranaense, periódicos, documentos diversos no acervo de órgãos públicos etc. Desse modo, chego a complementar, esclarecer ou retificar informações sobre CJM contidas em algumas obras dessa historiografia. Como exemplos de retificação, cito aqui a época (e implicações) do incêndio em seus engenhos e a sua primazia na implantação de  engenho a vapor em Curitiba.   

O estudo dará uma ideia do papel que CJM desempenhou em sua comunidade, não só na atividade principal, de caráter privado, como senhor de engenho de mate, mas também na vida pública da província do Paraná, como comandante da Guarda Nacional, juiz municipal substituto, deputado da Assembleia Provincial, vereador etc. Além disso, procurará mostrar, na medida da disponibilidade das informações, aspectos da sua vida familiar e social, permitindo vislumbrar as características, instituições e mentalidade da sociedade local, à qual pertencia. Por isso, incorporei também informações sobre seus familiares até 1889, obtidas principalmente como subproduto da pesquisa no “Dezenove de Dezembro” sobre CJM. A leitura “transversal” dessas informações sobre os familiares poderá enriquecer a nossa visão da época dele. 

  Mostrarei que um personagem importante da economia do mate, pertencente à classe detentora dos meios de produção, ocupou também (não por acaso) posições-chave em outras esferas da vida social, o que representa um caso individual, exemplificativo, de como se traduz na prática a dominação de classe, que pode se dar diretamente (como neste caso) ou indiretamente. 

  A literatura sociológica entende por burguesia a classe social que detém a propriedade dos meios de produção (como terra, máquinas e equipamentos) e contrata força-de-trabalho para desenvolver as atividades produtivas, mediante a utilização coordenada desses fatores.

  Numa sociedade escravista como aquela em que viveu CJM, os escravos representaram uma força-de-trabalho diferenciada, pois eram propriedade dos senhores, obrigados a prover o seu sustento em contrapartida ao trabalho despendido. Nessa sociedade polarizada, ele nasceu numa família pertencente à classe dos senhores, que originou a burguesia do mate local. Faleceu em 1877, antes portanto da abolição da escravatura, ocorrida em 1888. Assim, só a partir desse ano é que o capitalismo aqui se completa formalmente, com a existência nítida das duas classes sociais fundamentais que o caracterizam: a da burguesia e a dos trabalhadores assalariados (2).  

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  O período de vida de CJM corresponde ao início e primeiras décadas de desenvolvimento da economia do mate no Paraná.

  As atividades principais dessa economia relacionavam-se à extração da erva-mate e seu processamento industrial nos engenhos instalados para tal fim. O mate aqui produzido destinava-se à exportação, atendendo à demanda dos mercados platinos (Argentina e Uruguai) e do Chile. Tais atividades afirmam-se crescentemente a partir de 1820, quando Francisco de Alzagaray, empreendedor argentino e bom conhecedor do mercado, se radica em Paranaguá. 

  A burguesia do mate formou-se no litoral e “serra acima”, no planalto curitibano, em particular. Era integrada tanto por industriais quanto por comerciantes. Apoiava majoritariamente o Partido Conservador. Por outro lado, os latifundiários e criadores dos Campos Gerais vinculavam-se mais ao Partido Liberal (3).

  Na política do período provincial (1853-1889), vai se destacar, como líder do Partido Conservador, Manoel Antônio Guimarães (1813-1893), que receberia o título de Barão e depois Visconde de Nácar, residente em Paranaguá. Por outro lado, o chefe do Partido Liberal será o Conselheiro Jesuíno Marcondes de Oliveira e Sá (1827-1903), de Palmeira. 

À medida que a economia do mate evolui, sua burguesia se consolida,  influenciando os diversos aspectos da vida social.

A classe dominante local, integrada (não exclusivamente) por representantes da burguesia do mate, melhorou a infraestrutura econômica da província (estrada da Graciosa, ferrovia Curitiba-Paranaguá), promoveu a imigração, modernizou a cidade de Curitiba (com a realização de obras urbanas, inclusive a criação do Passeio Público em 1886 e com a edificação de palacetes), influenciou as opiniões correntes expressas na imprensa da época (iniciada com o “Dezenove de Dezembro”), adotou certos usos e costumes relacionados à alimentação, vestuário, estilo e condições de habitação, reprimiu os “fandangos e batuques”, criou a primeira universidade do Brasil etc (4).

  Mas este não é um estudo sobre uma determinada classe nem sobre a economia do mate em geral. É apenas uma investigação das especificidades concretas – em dado tempo e lugar – da vida de um indivíduo e seus familiares, pertencentes à camada dirigente da sociedade em que viveram, as quais interessam na medida em que ajudam a caracterizar essa mesma sociedade, que é a sociedade curitibana do tempo do Império, de caráter escravista, cuja prosperidade material dependia principalmente de um produto de exportação – o mate.

Este é assim um estudo sobre a história local que privilegia a dimensão do indivíduo mas não ignora o contexto social em que eles  estão inseridos e que condiciona suas ações. Para a caracterização desse contexto me apoiei largamente em autores reconhecidamente dignos de confiança, citados ao longo do trabalho.
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 Uma outra justificativa para a realização do estudo refere-se ao fato de que CJM teve uma longa descendência, cujos representantes desempenharam diferentes papéis em nossa vida social. De seu primeiro casamento nasceram 10 filhos, e do segundo, 8. Além de atuarem na economia ervateira, ou juntamente com ela, constata-se a presença de descendentes de CJM na política, no serviço público, no direito, no magistério, em organizações militares, na literatura, no ensaísmo histórico e sociológico etc. Dois desses descendentes destacaram-se na política, chegando a exercer a chefia do poder Executivo paranaense: Caetano Munhoz da Rocha, seu neto, foi presidente do Estado de 1920 a 1928, e Bento Munhoz da Rocha Neto, seu bisneto, foi governador no período 1951-55. Aliás, Samuel Guimarães da Costa destaca, como “uma curiosa coincidência de significado histórico”, que em 1953 -- ano do centenário da emancipação política do Paraná -- os três poderes do Estado estavam nas mãos de bisnetos de CJM: o Executivo, então chefiado por Bento, o Legislativo pelo deputado Laertes Munhoz, e o Judiciário pelo desembargador Munhoz de Mello,

valendo lembrar que Caetano José Munhoz participara há cem anos passados das solenidades de posse do primeiro governador da Província Zacarias de Góes e Vasconcelos, por sinal homenageado e recepcionado em sua residência (5). 

Dos seis grupos familiares tradicionais indicados por Ricardo Costa de Oliveira, que constituem o “tronco dos povoadores e fundadores da classe dominante do Paraná” (6), CJM descende de dois – o de Matheus Martins Leme e o de Balthazar Carrasco dos Reis, enquanto sua primeira esposa, D. Francisca Cândida, descendia de um terceiro, o de João Rodrigues França.

O conceito de “classe dominante” é assim entendido por esse autor:  

A classe dominante é uma formação social heterogênea, mas unificada por um eixo principal no controle das riquezas materiais, simbólicas e na posse de um conjunto de capitais sociais e políticos que permitem a sua reprodução, assim como o exercício da dominação e do poder político. A classe dominante compõe um bloco no poder que “indica assim a unidade contraditória particular das classes ou frações de classe politicamente dominantes, na sua relação com uma forma particular do Estado capitalista” (POULANTZAS, 1977, p.229). O bloco no poder é formado pelas diversas frações que apresentam uma unidade contraditória. O conceito de bloco no poder não se resume apenas à formação capitalista, pode ser operacionalizado na análise de formações pré-capitalistas, como no caso do Estado Escravista Colonial no Brasil (SAES,1985, p. 94-95) (7). 

Em nosso caso,  

A fração ervateira da classe dominante paranaense foi aquela que durante mais tempo organizou a hegemonia dentro do bloco no poder regional na periodização estudada de 1853-1930 . /.../ A força da fração dos grandes proprietários de terra ligados ao tropeirismo e à pecuária também conheceu momentos de poder (8).   

CJM e seus familiares, que se dedicaram à mesma atividade econômica,  pertenceriam pois à fração ervateira da classe dominante paranaense.

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Por último, gostaria de alertar o leitor, por um imperativo ético (explicitação de um possível viés do pesquisador), que também descendo de CJM, pois meu pai era seu bisneto, e neto de Florêncio José Munhoz, um dos 10 filhos do seu primeiro casamento. À parte todo o interesse e a simpatia que o personagem em questão desperta em mim, devido a essa relação de parentesco, estou ciente da conveniência de manter sempre um distanciamento crítico, aquele do cientista social, para que eu possa avaliá-lo objetivamente, no contexto sociológico e histórico ao qual pertence.  



NOTAS


(1) Antes de 1820, só havia em Curitiba e na Lapa unidades de beneficiamento do mate muito rudimentares, com base na força humana (de índios ou negros), segundo LINHARES, Temístocles—“História Econômica do Mate”. Rio de Janeiro: José Olympio, 1969- p. 169 e 171. A partir de 1820, como se verá, a atividade ervateira se desenvolverá mais rapidamente no litoral, inclusive com a implantação de engenhos movidos a energia hidráulica na região de Morretes.

(2) Octavio IANNI, em “As Metamorfoses do Escravo”- S.Paulo: Difusão Europeia  do Livro, 1962, equipara os escravos a semoventes e fala em castas sociais ao referir-se aos senhores e escravos, no que é criticado por Eduardo S. PENA. No primeiro caso, este critica a visão economicista de Ianni que o leva a menosprezar a personalidade do escravo, sua capacidade de resistir a uma ordem social injusta. Mostra que na comarca de Curitiba os escravos souberam explorar, no âmbito jurídico, as oportunidades que a lei de 1871 (lei do Ventre Livre) lhe ofereceram para obter a sua liberdade. Por outro lado, ao usar o conceito de castas sociais, quando o comportamento do escravo é condicionado pelos desígnios do senhor, Ianni  impede uma análise da dinâmica das relações escravistas, das contradições e lutas aí presentes, de que resultam  transformações (cf. PENA, Eduardo Spiller—”O Jogo da Face:a astúcia escrava frente aos senhores e à lei na Curitiba provincial”. Curitiba: Aos Quatro Ventos, 1999- p.115, 125 e 132-133).
  
(3) OLIVEIRA, Ricardo Costa de—“O Silêncio dos Vencedores: Genealogia, Classe Dominante e Estado no Paraná”. Curitiba: Moinho do Verbo, 2001, p. 170.

(4) Para uma ampla caracterização dessa sociedade apoiada no mate, no período provincial, consultar PEREIRA, Magnus Roberto de Mello—“Semeando Iras Rumo ao Progresso (Ordenamento jurídico e econômico da sociedade paranaense, 1829-1889)”. Curitiba: Ed. da UFPR, 1996.  
 
(5) Apud OLIVEIRA, R.C.de – op. cit., p.6

(6) OLIVEIRA, R.C.de – op. cit., p.40

(7) Ibid., p. 266

(8) Ibid., p. 267

2. CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS


Antes de prosseguir, gostaria de incluir aqui algumas considerações sobre a metodologia empregada para a elaboração deste trabalho.

Meu ponto-de-partida foi a “Genealogia Paranaense”, de Francisco Negrão. Obtive ali informação, bem organizada, sobre os ancestrais de meu pai, pelo seu lado materno, pertencentes à família Munhoz, provindos de Cádiz, na Espanha, que se estabeleceram em Paranaguá, no litoral paranaense, no século XVIII. Sobre eles tinha apenas vago conhecimento, e disperso, que adquiri convivendo com meu pai e também com minha avó Arabela, filha de Florêncio José Munhoz (neto), homônimo de seu avô. Seus nomes, aliás, também constam daquela “Genealogia”.

Lendo o que ali está contido, e interessado em aprofundar-me na história do Paraná (não tanto da grande História mas principalmente a dos pequenos eventos, a da vida cotidiana das pessoas), decide eleger, como tema de uma pesquisa, o estudo desses ancestrais, não só para conhecer mais as minhas próprias origens mas principalmente para tomá-los como amostra da sociedade de que eles eram parte integrante. Tomei assim como referência básica o tenente-coronel Caetano José Munhoz. Dele decorre, como disse, uma longa descendência, cujos membros desempenharam o papel que lhes coube na sociedade paranaense de sua época -- não necessariamente “importante”, de acordo com a História convencional -- mas digno de interesse por ser revelador, de uma maneira ou de outra, dessa mesma sociedade (todavia,  como vimos, CJM foi um cidadão “importante” na comunidade em que vivia).      

Também pesquisei sobre os ancestrais de CJM, suas origens familiares, de modo a obter uma compreensão mais completa de seu “status” social, tanto por parte de pai quanto de mãe. Mas a ênfase maior foi sobre o seu lado paterno, dos membros da família Munhoz, que provieram, como disse, da Espanha e se radicaram no litoral paranaense. CJM foi o primeiro a se estabelecer “serra acima”, em 1834, com um engenho de erva-mate movido pelas águas do rio Belém.

A obra de F. Negrão -- com diferentes graus de informação sobre os ancestrais, estendendo-se mais sobre uns e menos sobre outros -- me forneceu, de qualquer forma, um roteiro básico para a minha pesquisa. O lapso de tempo em questão envolveu, considerando a história do Paraná, o período anterior a 1853, e o período posterior a esse ano, quando a 5ª Comarca da província de S. Paulo emancipou-se politicamente, constituindo a província do Paraná.

Para o primeiro período, depois da “Genealogia” (que foi útil tanto para o primeiro quanto para o segundo período), o trabalho mais importante a fornecer informações sobre os ancestrais de CJM é o do patrono dos nossos historiadores, o cronista Antonio Vieira dos Santos, cuja “Memória Histórica de Paranaguá”, de  1850, refere-se a eles em várias oportunidades. Outra fonte valiosa de informação para esse período é o “Boletim do Arquivo Municipal de Curitiba”, dirigido por Francisco Negrão, que publicou as atas da Câmara Municipal de Curitiba de 1693 a 1873, refletindo assim a vida da cidade em que viveu CJM e sua família. Nessas atas, são mencionados CJM e seus familiares. O Boletim abrange os volumes 1 a 66, disponíveis para consulta na Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná.

A partir da citação, por Vieira dos Santos, do pai de CJM, como proprietário de uma fazenda na baía de Paranaguá, busquei e encontrei no Arquivo Público do Estado o registro dessa propriedade, conforme exigência da Lei de Terras. Esse procedimento foi adotado algumas vezes, vale dizer, a busca dos documentos originais sugerido por essas, e outras fontes consultadas. Mas também adotei o procedimento inverso, partindo da documentação primária relativa a CJM e familiares, consultando-os no Arquivo Público do Estado, consulta essa sugerida pela menção de seus nomes na catalogação do acervo dessa entidade.  

Quanto ao período posterior a 1853, a fonte básica para obter informações sobre CJM, e também seus familiares, foi a da imprensa da época, especialmente o primeiro jornal publicado no Paraná, o “Dezenove de Dezembro”, que abrange todo o período provincial, de 1854 a 1890.

Esse jornal começou a ser publicado em 1º de abril de 1854. Seu proprietário era Cândido Lopes, dono de uma tipografia em Niterói, que se transferiu para Curitiba estimulado pelo primeiro presidente da província do Paraná, Zacarias de Góes e Vasconcelos, que nele publicaria os atos oficiais. Inicialmente o jornal lançava uma edição por semana. A partir de 1871 passou a publicar duas edições. Tornou-se diário em 1884 mas depois retornou à situação anterior. Em 5 de setembro de 1885 passou a ser o “órgão do Partido Liberal”, absorvendo a “Província do Paraná”. Sua publicação prosseguiu até 9 de abril de 1890, sendo o único  periódico que abrange todo o período provincial do Paraná, apenas com uma breve interrupção (depois da edição de 18 de maio de 1861 o “Dezenove de Dezembro” só voltou a circular em 5 de novembro de 1862) (1).  O DD abrange assim praticamente todo o período da história do Paraná independente no tempo do Império e contém informações preciosas sobre os diferentes aspectos da vida da província, nas notas políticas e sociais, nos anúncios comerciais, nos obituários, na programação das companhias de teatro etc, além naturalmente das matérias sobre a administração pública que publicou como “diário oficial”. Por isso, esta monografia o utilizou sistematicamente como fonte de pesquisa para caracterizar as circunstâncias objetivas da vida de CJM, e também de seus familiares, dentro da sua abrangência temporal, que coincide com a da época de CJM, época escravocrata e monárquica, encerrada no final da década de 1880.

Complementarmente, também outros periódicos locais foram utilizados. Consultei-os todos -- esses e o “Dezenove de Dezembro” -- no precioso acervo, microfilmado, disponível na Divisão Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná. As citações aqui transcritas dessas fontes tiveram a sua ortografia atualizada. Tais informações orientaram a busca de documentos originais no Arquivo Público do Paraná, como já afirmei.  

Também fui orientado pelas menções a CJM contidas em diversas obras da historiografia paranaense, como as de Ermelino de Leão, Romário Martins, Newton Carneiro, Temístocles Linhares, David Carneiro, Maria Nicolas etc., além da produção universitária mais recente, representada pela importante pesquisa de Cecília Westphalen sobre o porto de Paranaguá e a dissertação de mestrado de Eduardo Spiller Pena, que se baseou no inventário de diversos ervateiros, inclusive no de CJM, a cujo documento original também tive acesso, no Fórum Cível de Curitiba. Outra fonte muito útil foi o “Dicionário Histórico-Biográfico do Estado do Paraná”, com verbetes escritos por Cecília Maria Westphalen, Altiva Pilatti Balhana, Cassiana Lacerda Carollo, Marta Morais da Costa e Lina Benghi.  

Para a caracterização da família, especialmente em certos aspectos de sua intimidade, apoiei-me em dois livros: no de Alcides Munhoz intitulado “Folhas Cadentes”, elogio de seu tio (e patrono na Academia de Letras do Paraná) Alfredo Munhoz, filho de CJM, e no de Lilia Albuquerque Vellozo -- “Revivendo Fatos da Infância e da Adolescência” – em que registrou as recordações de sua avó Augusta Munhoz Negrão relativamente ao pai dela, CJM. Nessa questão, também me servi do “Memorial de Família” de Eremir Bley Corrêa, por conter os resultados de sua pesquisa sobre os familiares em fontes primárias (livros de batismos, casamentos e óbitos), que complementei com dados obtidos na Catedral de Curitiba, Mitra Diocesana de Paranaguá e Cemitério Municipal S. Francisco de Paula.

Vale salientar ainda que se a abrangência temporal desta monografia se estende até o final do Império, ela inicia na segunda metade do século XVIII, quando os ancestrais de CJM se estabeleceram em Paranaguá, vindos da Espanha, e se uniram às famílias locais, assunto abordado na seção das “Origens familiares” de CJM, no cap. 3.

Uma preocupação permanente que tive, ao longo da pesquisa, foi jamais esquecer o contexto econômico, político e ideológico que condicionou a vida dos familiares. No caso deste trabalho sobre CJM, que se ampliou para incluir seus ascendentes e descendentes, tal contexto refere-se a um longo período de tempo, que na História do Brasil corresponde ao fim da época colonial e se estende por toda a vida do país independente, até o final do Império. Esse é o lapso de tempo desta monografia, que poderá ter prosseguimento num segundo esforço de pesquisa, relativo ao período republicano, chegando até os nossos dias.

Na época do pai de CJM, em Paranaguá, as questões às quais se voltava a sociedade local (ou pelo menos a sua elite) eram as de que o país tivesse uma Constituição (ele assinou, no começo de 1824, uma manifestação da Câmara de Paranaguá pedindo que D. Pedro I sancionasse o projeto de Constituição); a da consolidação da Independência, que determinou a criação em Paranaguá da Sociedade Patriótica dos Defensores da Independência e Liberdade Constitucional (à qual pertenceu o pai de CJM); a da luta pela emancipação da 5ª Comarca da província de S.Paulo, dentre outras. Posteriormente, no tempo de CJM, vivia-se aqui, como já foi dito, o “ciclo do mate”, D. Pedro II passara a reinar no país desde 1840 (e tal reinado se estenderia até 1889, quando se proclamou a República), a província do Paraná enfim se constituíra em 1853, a questão da escravidão dividia opiniões, provocara o incidente com o navio inglês “Cormorant” na baía de Paranaguá e era importante para CJM e familiares pois possuíam escravos, a Guerra do Paraguai (1864-70) afetava a vida do país, e também a de CJM, tenente-coronel da Guarda Nacional, ou a de alguns de seus filhos, que atingiram a idade adulta no tempo do Império. Para a maior compreensão dessas questões nacionais, apoiei-me na historiografia que me pareceu mais fidedigna a seu respeito.

Procurei incorporar o maior número de informações que obtive relativas à vinculação de CJM e seus familiares à elite paranaense de sua época, visando comprovar a pressuposição inicial, que acredito ter sido confirmada. São informações que se referem não só à atividade econômica que desenvolveram mas também ao seu nível de renda, seu grau de instrução, cargos públicos que ocuparam, seu círculo social, o relacionamento com o governo (por exemplo, participação em arrematações e licitações) etc. Também incorporei informações, quando possível, sobre pessoas próximas aos familiares, para reforçar a caracterização dessa elite local.

Outro critério adotado para incluir informações a este trabalho foi o da sua relevância em mostrar como se apresentava Curitiba, ou a província do Paraná, no tempo do Império, a partir de 1854 (quando se inicia a imprensa local, fonte principal dessas informações), relativamente aos aspectos físico-territorial, econômico, social, político ou ideológico.

Assim, seguindo aqui essa ordem, procurei incorporar informações sobre Curitiba, mostrando que a região central assentava-se entre os rios Ivo e Belém, quais eram suas principais ruas (com os nomes da época), as principais igrejas, os três caminhos que ligavam Curitiba ao litoral, a conclusão da estrada da Graciosa em meados dos anos de 1870, o uso de diligências para o transporte público; os engenhos de mate existentes e quem eram os principais ervateiros da época; as atividades comerciais, especialmente as de exportação; o tamanho da população da província e dos principais núcleos urbanos, o peso dos escravos nessa população; os usos e costumes; os clubes sociais existentes, as formas de lazer, em que destacavam as festas religiosas; a importância da religião católica (que era a religião oficial do Estado), as irmandades de leigos; a situação da saúde: a inauguração do hospital da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, a atuação do Dr. Murici e de outros médicos que aqui clinicavam; a situação da educação: as escolas primárias e secundárias existentes, os “exames de preparatórios”, os (poucos) estudantes paranaenses que estudavam fora da província; a atuação dos partidos Liberal e Conservador, numa província subordinada ao governo central (pois o regime era então unitário e não federativo, como passou a ser na República); o sistema eleitoral da época, em que se escolhiam vinte deputados para a Assembleia provincial, dois para a Câmara dos Deputados, sediada no Rio de Janeiro (“na Corte”) e uma lista tríplice para o Senado, da qual o Imperador optava por um nome que seria o senador do Paraná, cargo que era então vitalício; a escolha de vereadores de Curitiba, mas não de prefeito, pois não houve esse cargo no tempo do Império, se excetuarmos o período de 2 anos e 8 meses em 1835-1838; as idéias dominantes e os periódicos que as vinculavam etc.

Todas essas informações, e outras mais, constam deste trabalho, não de forma sistemática, seguindo o critério acima, mas dispersas ao longo dele. Acabaram sendo incorporadas, mais ou menos ao acaso, à medida que se procurava caracterizar a vida dos familiares. Estes foram definidos previamente como o objeto deste trabalho, que priorizou as pessoas e não as categorias sociológicas abstratas. Todavia, tal opção metodológica foi alimentada pela esperança de que o trabalho contribua, seguindo esse caminho alternativo, para o conhecimento da sociedade em que eles viveram.

Preferi citar textualmente certas passagens dos periódicos antigos a dizer a mesma coisa com minhas próprias palavras, visando não só assegurar a precisão da informação obtida mas também apresentar uma amostra do estilo e da linguagem da época, onde aparecem às vezes expressões curiosas.

Reuni, num mesmo capítulo, as informações obtidas sobre três mulheres da família de CJM, procurando também contribuir, de alguma forma, para a compreensão da condição feminina no tempo do Império. São elas a 2ª esposa de CJM, D. Narcisa, a esposa de seu irmão, D. Maria do Céu, e sua neta Francisca. As duas primeiras, após enviuvarem, dedicaram-se ao magistério. A terceira também já se encaminhava para ele, quando se casou,  revelando que tal ocupação era então uma das (poucas) opções profissionais oferecidas às mulheres solteiras ou viúvas instruídas. 

Cabe salientar, por fim, que enquanto realizava minha pesquisa no “Dezenove de Dezembro”, verifiquei que Fidencio Antonio Munhoz é frequentemente mencionado no jornal. Trata-se de um Munhoz de condição subalterna, contínuo/porteiro no serviço público. Ele era talvez membro dessa mesma família Munhoz de emigração mais recente para o Brasil a que pertencia CJM, embora seu nome não conste na “Genealogia Paranaense”, o que não é de admirar-se, dado o caráter enviesado da obra. Resolvi então tomá-lo também como objeto de estudo, dedicando a Fidencio o capítulo final do trabalho, a fim de indicar as diferenças (e semelhanças) entre os seus fatos biográficos e os dos familiares de CJM, vale dizer, estabelecendo um confronto entre o contínuo/porteiro e as pessoas que ocupavam posição mais elevada na hierarquia social.


  NOTA


(1) A interrupção da publicação do DD foi uma decorrência da perda do contrato que o jornal mantinha com o governo da província do Paraná em 1861 para publicação dos atos oficiais. O presidente José Francisco Cardoso, que não era apoiado nem pelos liberais nem pelos conservadores, requisitou espaço no jornal para utilização política em seu interesse, com o que Cândido Lopes não concordou, resultando daí a perda da subvenção que recebia e a criação em fevereiro de 1861 do “Correio Oficial” por parte do governo da província, que não perdurou por muito tempo, possibilitando o reaparecimento do DD em novembro de 1862. Cf “Dicionário Histórico-Biográfico do Estado do Paraná”. Curitiba: Chain; Banco do Estado do Paraná, 1991- p. 123; NEGRÃO, Francisco—“Genealogia Paranaense”- v.1- Curitiba, 1926, p. 281-2 (edição fac-similar da Imprensa Oficial do Estado).     

3. ANTECEDENTES


3.1- Paranaguá em 1817


Paranaguá por Debret (na época do nascimento de CJM) (Fonte: www.gilsoncamargo.com.br/blog)
O distrito de Paranaguá em 1815, dois anos antes do nascimento de CJM, possuía, segundo dados de Spix e Martius citados por Saint-Hilaire, uma população de 5.801 habitantes, sendo 4.728 livres e 1.073 escravos (18,5% da população total). Os escravos compunham-se de 684 negros e 389 mulatos. A população livre era formada por 3.825 brancos, 541 mulatos e 362 negros (1).

Saint-Hilaire compara esses dados com os de Daniel Pedro Müller para 1838 relativos ao mesmo distrito. A população de Paranaguá se eleva para 8.891 habitantes naquele ano, assim como o número de escravos aumenta para 1.639. Aumenta em termos absolutos mas eles praticamente mantêm a sua participação relativa na população total (18,4%). Curiosamente, Saint-Hilaire -- que percorreu a região em 1820 -- não chama a atenção para o peso da população negra e mulata em Paranaguá, que em 1815 representava 34% do total, de acordo com os dados citados. Ele destaca, sim, a influência indígena na população parnanguara ao referir-se à forte presença nela do “caboclo”.

Assinala que o aumento da população foi mais acentuado em Paranaguá do que em Curitiba, certamente influenciado pelo fato de que a economia do mate, tomando um grande impulso a partir de 1820, dinamizara o seu comércio exterior.  

Saint-Hilaire salienta também a evolução do número de embarcações, afirmando que, à época de sua visita, cerca de 50 embarcações de pequeno  calado entraram no porto de Paranaguá (das quais uma dúzia pertenceria aos habitantes da região) enquanto em 1836 o número dessas embarcações, de países europeus ou sulamericanos, se elevava a 134.  

Alguns anos antes, em 1812, Paranaguá perdeu para a vila de Curitiba a condição de sede da Ouvidoria e Corregedoria Geral de uma ampla comarca, pertencente à província de São Paulo. O Ouvidor e Corregedor Geral — cargo de funções relevantes, que fazia a ponte entre a Câmara e o governo central — passaria a residir assim em Curitiba, enquanto a  residência do Juiz de Fora seria em Paranaguá (2). Ambas as vilas eram os núcleos urbanos que mais se destacavam em seu território, e aquela transferência de sede talvez indicasse a conveniência estratégica, para o governo província, de interiorizar a sede da comarca. Talvez indicasse também uma reação à maior consciência política de Paranaguá, expressa pelo fato de que sua Câmara, no ano anterior (1811), encaminhara representação ao Príncipe Regente D. João pedindo que a Comarca fosse emancipada da província de São Paulo. Paranaguá, conforme aí é dito, era então cabeça de uma comarca que abrangia, além dela própria e de  Curitiba, as vilas de Iguape, Cananeia, Antonina, Guaratuba, Castro, Vila Nova do Príncipe (atual Lapa) e Lages (3) (as duas primeiras são hoje cidades do Estado de  S.Paulo e a última, de Santa Catarina).   

  De acordo com Cecília M. Westphalen, havia na região de Paranaguá muita pobreza nessa época, indicada inclusive pelo caráter de essencialidade dos produtos importados (fazendas, algodão, sal, açúcar e ferragens). Dali eram exportados farinha de mandioca, e alguns outros produtos (arroz, congonha – outro nome da erva-mate--, couro bovino, betas de embé (4) e peixe salgado). Praticava-se uma agricultura predominantemente de subsistência (5).

Por outro lado, Vieira dos Santos transcreve uma representação da Câmara de Paranaguá de 1820 em que se mencionam os produtos que desciam de Curitiba para Paranaguá por uma estrada “arriscada e quase intransitável”: carne verde e seca, toucinho, milho, feijão, trigo, congonha, sola e couros. No sentido inverso, de Paranaguá para Curitiba, “se transportavam vinhos, azeites, vinagre, aguardente, sal e fazenda seca e outros ramos de comércio” (6).

  As pessoas de posse da região deviam dedicar-se à criação de gado e à lavoura, além do comércio, inclusive de escravos (proibido por uma lei “para inglês ver” de 1831). O pai de CJM, antes de 1840, recebeu, por herança, terras na baía de Paranaguá junto ao rio Itinga; já se dedicava então à exportação de mate pois seu nome aparece numa relação de exportadores desse produto daquele ano. Essas seriam as atividades econômicas desenvolvidas pelas pessoas da região mais bem situadas economicamente. Desenvolve-se o comércio não só com a Corte e outras cidades da costa mas também com outros países sul americanos, caso do (futuro) Visconde de Nácar, que será o homem de negócios mais próspero da região. Este funda em 1830, e mantém até o final do século, “a principal casa comercial de Paranaguá, exportadora de erva-mate, arroz e outros gêneros” (7) (em suas propriedades havia mais de 50 escravos (8)). Paranaguá beneficiava-se de sua localização geográfica, junto ao porto. Numa época em que tudo na Comarca era importado, seja da Corte seja diretamente da Europa, bem se pode avaliar tal importância. A dinamização da economia regional será decorrente assim da exportação do mate, que significava o desenvolvimento das atividades ligadas à extração da erva, seu processamento e transporte.

  Após a sua extração “serra acima”, o mate era transportado para o litoral, inicialmente nas costas dos escravos e depois em lombo de burro, antes de ser concluída estrada carroçável (a estrada da Graciosa), o que só ocorreu em meados da década de 1870. Uma vez realizada a secagem, o mate estava em condições de ser socado nos engenhos aí existentes até se obter o produto próprio para consumo, sob a forma de chimarrão, muito apreciado nos mercados platinos e Chile. Segundo os historiadores, a exploração dessa planta, já recomendada pelo Ouvidor Pardinho em 1720 como meio de superar a pobreza da região, ganha impulso significativo cem  anos  depois  com  a  vinda de Francisco de Alzagaray a Paranaguá, que marca o início do desenvolvimento  dessa atividade econômica. De acordo com C.M. Westphalen, em 1826 a erva-mate já representava 70% do total da exportação paranaense. Nessa época já havia em Paranaguá três estabelecimentos de erva-mate (“toscos fornos”). “Toda erva-mate preparada em Paranaguá vinha remetida da vila de Curitiba” (9).

  A sociedade de então era escravista, como já foi dito. Os escravos representarão em 1854, segundo Relatório do presidente Zacarias, 20% da população de Paranaguá, enquanto representavam apenas 8,5% em Curitiba (10).

  Paranaguá em 1817 era uma “vila”. Só seria elevada à categoria de “cidade” em 1842, juntamente com Curitiba. Sendo vila, Paranaguá possuía Câmara de Vereadores. Aliás, tal Câmara tinha mais importância então do que atualmente, exercendo não só funções legislativas mas também executivas e judiciárias. Não havia prefeito. Era a instituição que representava o poder público na comunidade, numa época de precárias vias de comunicação e meios de transporte. Só com muita dificuldade superavam-se as longas distâncias entre a sede da Comarca e a do governo provincial em São Paulo ou do governo imperial, no Rio de Janeiro, este integralmente alcançado por via marítima, a partir dos portos de Paranaguá ou Antonina, e aquele parcialmente, via Santos. Na argumentação em prol da emancipação da Comarca dizia-se que Paranaguá tinha mais ligação com o Rio de Janeiro do que com São Paulo, capital da província à qual estava subordinada.

Em 1821 ocorreu em Paranaguá a chamada “Conjura separatista”, e a manifestação emblemática do sargento Floriano Bento Viana, do Regimento de Milícias, em favor da emancipação política do Paraná (11).

  Do ponto de vista cultural, apesar de toda a sua precariedade, Paranaguá estava em melhor situação do que Curitiba e dos outros núcleos urbanos da Comarca, pois a existência do porto lhe facilitava o contato com sociedades mais desenvolvidas. Pelo porto chegavam livros e jornais de outras cidades e países (o fato de ser porto também contribuía para maior familiaridade com línguas estrangeiras). Ainda não havia jornal publicado ali, em 1817, nem se sabe da existência de escritores locais. Mas é interessante ressaltar que o primeiro poeta paranaense, Fernando Amaro, vai nascer em Paranaguá no ano de 1831. Também ali nascerá, em 1839, a nossa primeira pintora, Iria Correia, a primeira poetisa, Júlia da Costa, em 1844, e o importante compositor Brasílio Itiberê, em 1846 (12). Os parnanguaras tinham consciência do maior desenvolvimento de sua cidade com relação a Curitiba, como mostra a argumentação contida na representação, transcrita por Vieira dos Santos, da Câmara de Paranaguá, em 1843, dirigida ao presidente da Província, em que reivindicam a emancipação da sua Comarca (13).






NOTAS


(1) SAINT-HILAIRE, Auguste de—“Viagem pela Comarca de Curitiba”. Curitiba: Fundação Cultural, 1995- p. 152, 156-157 (coleção Farol do Saber)

(2) SANTOS, Antônio Vieira dos—“Memória Histórica de Paranaguá”. Curitiba: Vicentina, 2001- v. I, p. 226

(3) Ibid.,  v.I, p.218-219

(4) Betas: feixe de fios; cabos usados a bordo. Imbé: tipo de planta trepadeira que fornece fibras para corda (dicionário Houaiss)

(5) WESTPHALEN, Cecília M.- “Porto de Paranaguá, um Sedutor”. Curitiba, Governo do Paraná, 1998- p. 216 e 227

(6) SANTOS, A. Vieira dos— op cit, v.I, p 237

(7)  WESTPHALEN, C.M- op.cit., p. 182

(8) “Dicionário Histórico- Biográfico do Estado do Paraná”- op cit, p. 205.

(9)  WESTPHALEN, C.M- op.cit., p. 239

(10) Relatório do Presidente Zacarias na abertura da Assembléia Legislativa Provincial em 15.07.1854- mapa nº 14- apud IANNI, Octavio—op cit, p. 104

(11) “Dicionário Histórico- Biográfico do Estado do Paraná”, op cit, p. 97-98.

(12) SANTOS, Pompília Lopes dos—“Florescimento da Arte no Paraná”  in “Boletim do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense”. Curitiba, v. XVII, 1972- p. 123-137

(13) SANTOS, A. Vieira dos— op cit, v.I, p.319-320




Espanha- localização de Cádiz (Fonte: internet)



 3.2- Origens familiares


  CJM pertencia, por parte de pai, à família Munhoz (ou Munhós, ou ainda Munhoenz, como consta nos documentos mais antigos). A origem dos ancestrais de CJM, radicados em Paranaguá, é mais recente do que a de outros portadores desse sobrenome, presentes no território brasileiro já no século XVI (1).  Para seu neto, o escritor Alcides Munhoz,   

A família Munhoz no sul do Brasil e nas repúblicas platinas provém de um único tronco de origem que teve o seu início em Tarancon, província espanhola de Cuenca. O seu primeiro representante foi um empregado régio de impostos, no século dezesseis. Um dos seus descendentes veio para a América pelo meado do século dezoito. Viera, como militar, para as possessões espanholas do sul, para a Banda Oriental, provavelmente, em serviço da coroa. (2)

  Nas páginas seguintes apresento informações, colhidas em diferentes fontes, sobre os ascendentes de CJM, especialmente seus pais, e o meio social em que viveram.

                                                  *

 
Segundo Francisco Negrão, seu pai -- o tenente (de Milícias) Florêncio José Munhoz, doravante FJM -- nasceu em Paranaguá, filho de Bento Antônio Munhoz e Miquelina de Assumpção, “naturais de Cádiz”. Mas não informa mais nada a respeito desse casal, apenas que os pais de Bento chamavam-se Bernardo Munhoz e Rosa Maria e os de Miquelina, Manoel Ignácio do Vale e Lourença Maria (3).

Ricardo Costa de Oliveira (4) extraiu de um processo de dispensa matrimonial de 1795 relativo aos noivos José Bernardo Munhoz e Rosa Maria de Miranda (batizada em Paranaguá em 8 de março de 1763) a informação de que os pais de José Bernardo  chamavam-se Bernardo Antônio Munhoz (de Cádiz, Espanha) e Rosa Maria da Rocha. Deduzo daí que esses eram os nomes completos dos pais de Bento referidos por F. Negrão. E que Bento era irmão de José Bernardo, já que seus pais eram os mesmos. Outra informação interessante obtida desse processo é a de que os avós paternos de José Bernardo, e por conseguinte de Bento, chamavam-se  João Munhoz e Ângela Maria, de Cádiz.

O pai de FJM deve ser o Bento Munhoz citado por Vieira dos Santos na relação dos cidadãos parnanguaras “que serviram nos cargos de governança desde 1750 a 1800 (5). E deve ser aquele Bento José Munhoz cujo óbito ocorreu no período 1801-1802, conforme o “Mapa necrológico” preparado por esse autor a partir dos registros das Irmandades do SS. Sacramento e de N.Sra.do Rosário, já que F. Negrão afirma que Balbina, irmã de FJM, era filha de Bento José (e não Bento Antônio) Munhoz e de sua mulher Miquelina Maria de Assumpção (6). Também no registro de batismo de Bento Florêncio, filho de FJM, o nome do avô paterno é Bento José, e não Bento Antônio, e o da avó é Maria Miquelina, e não Miquelina Maria, conforme informação que me foi fornecida pela Mitra Diocesana de Paranaguá.  
 
Quanto ao avô Bernardo, poderia ser aquele Bernardo Antônio Munhoz cujo óbito, no período 1809-1810, constou no “Mapa cronológico” antes referido (7). F. Negrão cita um Bernardo Antônio, “falecido em Paranaguá em 1809” como um possível irmão de FJM, mas não está certo dessa relação de parentesco, ao   contrário dos outros irmãos que menciona, ou melhor, irmãs, Francisca, Balbina e Maria. A primeira, Francisca Munhoz de Siqueira, casou com o Tenente Bento José de Siqueira, Balbina Maria de Assumpção com o Capitão Antônio José de Carvalho e Maria Munhoz com Manoel de Oliveira Cercal (8).

“Bento Munhoz” (o pai de FJM?), como disse acima, consta da relação apresentada por Vieira dos Santos dos cidadãos parnanguaras que serviram em cargos de governança no período 1750-1800. Essa é a referência mais antiga a um Munhoz na sua “Memória Histórica de Paranaguá” (o nome “Bento José Munhoz” também aparecerá em relação semelhante, referente a 1800-1850). O mesmo autor, na p. 171, v.1, dessa obra, arrola “mais de 30 pessoas da governança”, aí incluídos os membros da Câmara, que assinaram em 19 de maio de 1781 uma reclamação contra a nova tarifa de pagamento pelos “toques dos dobres de sinos da igreja matriz” de Paranaguá, diferenciada segundo o gênero ou a idade da pessoa falecida (homens, mulheres, meninos de 7 a 14 anos). Nessa relação não consta Bento nem outro Munhoz, indicando talvez que os ancestrais de FJM ainda não haviam se estabelecido na região, ou se já o haviam, isso ocorrera há pouco tempo, pois ainda não tinham sido escolhidos para integrarem a “governança”, o que só teria ocorrido assim após aquele ano de 1781.       

  Sessenta anos antes, em 1721, na relação apresentada por Vieira dos Santos dos “115 cidadãos principais” que assinaram os Provimentos do ouvidor Rafael Pires Pardinho, após sua leitura e aprovação na sessão da Câmara da vila de Paranaguá realizada em 16 de junho daquele ano, também não consta nenhum signatário com o sobrenome Munhoz (9), o que certamente ocorreria se eles já estivessem radicados na região.  

Relacionado à família, consta aí apenas o nome de Manoel do Vale Porto, o fundador de Antonina, o qual virá a ser bisavô de Luíza Lícia, a esposa de FJM, com quem este se casará quase cem anos mais tarde.  Vieira dos Santos informa que em 1714 o sargento-mor de ordenanças da capitania de Paranaguá Manoel do Vale Porto e os residentes da localidade que se tornaria a atual Antonina requereram ao bispo do Rio de Janeiro “a faculdade de poderem levantar uma capela debaixo do título de Nossa Senhora do Pilar da Graciosa”, o que lhes foi concedido (cf op cit, v.I, p 118). Essa é a origem de Antonina, cujo nome homenageia o príncipe D. Antônio Pio (1795-1801), filho de D. João e D. Carlota Joaquina (10), irmão portanto de D.Pedro I, falecido criança. Em 1785 o vigário da igreja matriz de Paranaguá informava à Câmara que a freguesia do Pilar abrangia 1.826 pessoas (enquanto a vila de Paranaguá possuía 3.427). Tal freguesia só alcançaria o status de vila em 1797 (11).

  A presença de representantes da família Munhoz no Brasil é muito antiga, segundo C.G. Rheingantz (12), datando do século XVI. De acordo com Alcides Munhoz, esses ancestrais de FJM radicaram-se no país mais recentemente. Teriam emigrado da Espanha só no séc.XVIII, e em melhores condições econômicas, aparentemente. A cidade portuária de Cádiz localizada bem ao sul do país, próxima ao estreito de Gibraltar, pertence à região da Andaluzia. Em 1755 ocorreu ali um maremoto, que quase acabou com a cidade. Talvez esse fato tenha influenciado a decisão, por parte dos pais, ou avós, de FJM, de emigrarem para o Brasil (13).

Do ponto-de-vista da história do nosso continente, exatamente na metade do século XVIII Espanha e Portugal celebraram o Tratado de Madri pelo qual entraram em acordo relativamente às fronteiras de suas possessões sul-americanas (Portugal perdia a Colônia do Sacramento e abandonava suas pretensões ao estuário do Prata mas ganhava, em compensação, os territórios do sul do Brasil, do sul matogrossense etc). Todavia, mais tarde, em 1761, as hostilidades entre os dois países reiniciaram, como decorrência de seu envolvimento, em campos opostos, na Guerra dos Sete Anos, entre a Inglaterra e a França. A esta aliou-se a Espanha num “pacto de família”, dos Bourbons, enquanto o rei de Portugal, apesar do parentesco, preferiu permanecer fiel à aliança com a Inglaterra. As hostilidades só cessariam definitivamente com a celebração do Tratado de Santo Ildefonso em 1777, consolidando a posse portuguesa do atual território brasileiro do sul, e de outras regiões (14).

Com o reinício dos conflitos, segundo Vieira dos Santos (15), “A Espanha fez logo aprontar em Cádiz uma grande esquadra de guerra, guarnecida de tropa sob o comando de Dom Pedro de Cevallos, e enviada à costa do Brasil, onde chegando, logo tomaram a Ilha de Santa Catarina” em 1777 (e não em 1772, como aí consta). Os espanhóis se retirariam dessa ilha no ano seguinte. Sabe-se também que Cevallos, a partir de Montevidéu, atacou a Colônia do Sacramento naquele mesmo ano. Mas o Tratado de Santo Ildefonso, como já foi dito, poria fim a essas hostilidades, com a definição acordada dos limites entre as possessões das duas coroas ibéricas.

É nessa conjuntura que pode ter vindo de Cádiz o primeiro Munhoz ancestral de CJM (e não de outros representantes da família Munhoz existentes em nossa terra, cuja origem é mais antiga, conforme Rheingantz referido acima). Isso é coerente com a citação de Alcides Munhoz transcrita antes neste trabalho, para quem esse primeiro Munhoz seria um militar e teria vindo para a Banda Oriental do Uruguai “pelo meado do século dezoito”.  

Resumindo as informações sobre os ancestrais do pai de CJM expostas anteriormente: FJM era filho de Bento Munhoz e Miquelina de Assumpção. Neto de Bernardo Antônio Munhoz e Rosa Maria da Rocha. Bisneto de João Munhoz e Ângela Maria. Seus ancestrais espanhóis procediam de Cádiz, na região da Andaluzia.   

Além disso, Bento era irmão de José Bernardo e Joaquim Antônio Munhoz (ver a nota (41), ao final desta seção do capítulo 3, a justificativa desta afirmação relativamente a Joaquim). Talvez também o fosse de Pedro Antonio Munhoz. Eles seriam assim tios de FJM. 

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  O casal Florêncio José Munhoz-Luíza Lícia de Lima Munhoz teve os seguintes filhos, segundo Francisco Negrão (16):
1.Caetano José Munhoz, nascido em Paranaguá aos 17 de junho de 1817.
2. Bento Florêncio Munhoz, batizado em 6 de agosto de 1824 (segundo me informou a Mitra Diocesana de Paranaguá, baseada no livro dos registros respectivos). Ele casou com Maria do Céu Taborda Ribas. Não tiveram  descendentes.  
 3. Maria Lícia Munhoz, batizada em 29 de junho de 1829, cujos padrinhos foram o capitão Joaquim Antonio Munhoz, solteiro, e Catharina Maria do Espírito Santo, viúva (17). Ela casou em 2 de fevereiro de 1850 com Manoel Martins da Rocha, filho de Manoel Martins e Maria Joaquina de Souza, naturais do Reino de Portugal, freguesia de São Martinho de Campos (18). Maria Lícia Munhoz e Manoel Martins da Rocha são os pais do Cel. Bento Munhoz da Rocha, de quem descendem diretamente dois governadores do Paraná.
4. Balbina Lícia Munhoz, que casou com o Major Mathias Taborda Ribas, “comendador e importante industrial”, irmão de Maria do Céu antes referida, “sem descendentes”. Assim, os irmãos Bento Florêncio e Balbina casaram com os também irmãos Maria do Céu e Mathias. 
                                                 *
  Em que ano FJM nasceu?  No livro de registro de óbitos em poder da Mitra Diocesana de Paranaguá (que gentilmente me forneceu a informação que segue) consta que ele, natural e morador de Paranaguá, faleceu em 1856, aos 65 anos de idade. Logo, seu nascimento ocorreu em 1791. Como se vê, seu período da vida (1791-1856) corresponde basicamente à 1ª metade do século XIX, quando ainda não existia a província do Paraná e a região estava subordinada à de São Paulo, como a sua 5ª. Comarca.
O “Ensaio d’um Quadro Estatístico da Província de São Paulo” de Daniel Pedro Müller, que é de 1838, mostra como estava organizada então essa província, dividida em comarcas, que se subdividiam em termos, os quais abrangiam vilas, freguesias e capelas curadas. A província de S. Paulo dividia-se em 6 Comarcas e 24 Termos.
A 5ª. Comarca era composta de três Termos, os de Paranaguá, Curitiba e Castro. O Termo de Paranaguá incluía as vilas de Paranaguá, Guaratuba e Antonina, a freguesia de Morretes (anexa a esta última) e a capela curada de Guaraquiçava (sic). O Termo de Curitiba abrangia a vila de Curitiba e as freguesias de S. José dos Pinhaes, Votuverava e Palmeiras (sic). Abrangia também a vila Nova do Príncipe e a freguesia de Rio Negro, anexa a esta última vila. O Termo abrangia ainda a capela curada de Campo Largo. O Termo de Castro abrangia a vila de Castro e as freguesias de Guarapuava, Belém no Tibagi, Jaguariaiba (sic) e Ponta Grossa.
Como se vê, em 1838 a 5ª. Comarca possuía seis vilas: Curitiba, Nova do Príncipe (atual Lapa), Castro, Paranaguá, Guaratuba e Antonina (19). Três delas localizavam-se no litoral, indicando a importância relativa dessa região na época de FJM. 

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Qual era a situação econômico-social de Paranaguá nesses anos? Tentarei caracterizá-la em rápidas pinceladas me beneficiando dos resultados obtidos nas pesquisas amplas e sistemáticas realizadas por Cecília Westphalen.   

Em 1772, censo realizado na província de S.Paulo revelou que a população da vila de Paranaguá era superior à de Curitiba: tinha 3.193 hab, enquanto a de Curitiba, 1.939 hab. Mas no ano da instalação da província do Paraná, em 1854, a situação se invertera. Enquanto a população de Paranaguá (termo da cidade) crescera para 11.573 hab, a do termo de Curitiba crescera  para 20.629 hab. A nova província do Império contava então com uma população de  62.258 hab (20).   

  No final do séc. XVIII, o estado sanitário da população litorânea era péssimo: em 1788, um surto epidêmico matou cerca de 10% de toda a população de Paranaguá. Havia também muita pobreza (21).  

  Aliás, quanto à pobreza, vale a pena lembrar aqui a passagem seguinte da “Memória Histórica” de Vieira dos Santos (22). Segundo o “pai da historiografia paranaense”, em resposta a uma determinação de D. Luiz Antonio Botelho Mourão, General da Capitania de S. Paulo, que mandara a comunidade parnanguara contribuir para a construção de uma fortaleza na barra da baía de Paranaguá com recursos próprios, a Câmara, em “vereança” de 28 de janeiro de 1766, deliberou que “atendendo ao miserável estado da terra e seus moradores, lhes não convinha contribuir com coisa alguma para a mesma obra”. E mais adiante a Câmara acrescentava esta observação sobre a população da Vila: “distinguindo a qualidade de seus moradores, se achariam só sessenta ou setenta com algum tratamento, o mais tudo gente de pé descalço” (não é de se admirar, portanto, que gente com alguma posse, como os Munhoz, logo se destacassem dentre essa população muito pobre).

  Em 1800, Paranaguá exportava farinha de mandioca, arroz socado, arroz com casca, congonhas, meios de sola, couros de vaca e de boi, farinha de trigo, betas de embé, viradores (ou cabos usados para reboque, atracação de barcos etc), peixe salgado, goma, café.  Por outro lado, Paranaguá importava fazendas, algodão, sal, açúcar e ferragens.  

  Em 1808 a Câmara de Paranaguá obrigava a todos os possuidores de terras e sítios a plantarem mandioca em suas lavouras, pois havia falta de farinhas.  Os exércitos do Sul reclamavam tal abastecimento (23).

  Quanto à erva-mate – responsável por todo um ciclo econômico, a partir da década de 1820, de importância crucial para a formação do Estado do Paraná  --, os moradores da Comarca não aproveitaram da Provisão Régia de 1722, que autorizava o comércio, inclusive com Buenos Aires (24), certamente pela ausência de capitais (25). A comercialização da erva-mate limitava-se no séc. XVIII às pequenas permutas com os barcos nacionais, que vinham para cá em busca de farinhas de mandioca e arroz (26).  

  Em 1808 ocorreu a abertura dos portos às nações amigas, inclusive o de Paranaguá (27). Quando as remessas de erva pelo Paraguai para o mercado de Buenos Aires foram escasseando, em decorrência de medidas restritivas ali impostas, os preços se elevaram. A demanda cresceu e abriu-se oportunidade para a nossa erva (28), o que enriqueceria os comerciantes de erva-mate (29).

  Em 1820, chegou a Paranaguá o argentino Francisco de Alzagaray. Antes da década de 1820 e de Alzagaray não havia ali exploração econômica do mate (mas havia engenhos de açúcar desde 1780, e em 1785 principiara a cultura do arroz em Paranaguá) (30).   

  Em 1826, a erva-mate já representa 70% do total da exportação paranaense; nessa época, havia em Paranaguá 11 engenhos de destilar aguardente, 6 engenhos de pilar arroz, diversas caieiras (ou fábricas de cal) e 3 estabelecimentos de erva-mate (“toscos fornos”). Toda erva preparada em Paranaguá procedia da vila de Curitiba, como já foi dito.

  Alguns anos depois, em 1830, Manuel Antônio Guimarães (futuro Visconde de Nácar) fundou, e manteve até a última década do século, “a principal casa comercial de Paranaguá, exportadora de erva-mate, arroz e outros gêneros” (31).

  Em 1836, as vilas do litoral produziam aguardente, café, arroz, farinha de mandioca principalmente, peixe, tabuado, vigas e betas de embé; as do planalto (Curitiba, Castro e Príncipe), que se dedicavam à criação de gado vacum, cavalar e lanígero, produziam feijão e, sobretudo, erva-mate (32).  

A perseguição de navios negreiros pelos ingleses em nossa costa, e o incidente com o cruzador inglês “Cornorant” na baía de Paranaguá, indicam que o negócio de escravos era praticado na região, inclusive após a lei de 1831, que proibia o tráfico. Romário Martins chega a afirmar que este prosseguiu mesmo após 1850 (33).

  A navegação no porto de Paranaguá era realizada por embarcações à vela. Somente em 1839 entrou em Paranaguá o primeiro barco a vapor. As embarcações a vapor seriam mais frequentes no porto posteriormente, na 2a. metade do século (34).

                                                             *

  Sobre a educação de FJM, suponho que teve aquela típica da época para as pessoas de sua condição social. Os jesuítas mantiveram um colégio em Paranaguá no século XVIII. Mas foram expulsos do Brasil em 1759, muito antes do nascimento de FJM, ocorrido em 1791. Por isso, a hipótese dele ter sido seu aluno fica descartada. FJM pode ter sido enviado para estudar nos centros maiores (São Paulo, Rio de Janeiro) ou mesmo no exterior, como era usual com relação aos filhos das classes dominantes. Se permaneceu em sua cidade, pode ter recebido aulas de professor particular, ou frequentado escola régia, onde aliás só brancos estudavam (dela estavam excluídos os índios e os negros) (35).  

Vieira dos Santos (36) apresenta algumas informações relacionadas à educação em Paranaguá  no final do século XVIII e começo do século XIX. Havia então “professores régios” que poderiam  ter instruído o jovem FJM.

Em 6 de setembro de 1768 uma provisão passada no Rio de Janeiro por um representante da autoridade eclesiástica de Lisboa e Diretor Geral dos Estudos nomeava o padre Inácio Pinto da Conceição “professor régio da gramática latina da vila de Paranaguá” . 

Mais tarde, pela vereança de 26 de julho de 1783, a Câmara representou à rainha D. Maria I “a necessidade de haver um professor régio para o ensino das primeiras letras” .

Cinco anos depois, em 1788, Provisão Régia de D. Maria I faz “mercê a Francisco Inácio do Amaral Gurgel do lugar de substituto da escola de ler e escrever e do catecismo na Vila de Paranaguá da Capitania de S. Paulo”. Em 1790 esse “professor de primeiras letras” recebe uma carta em que um escriturário de São Paulo, por determinação do General da Capitania, o convida a vir residir naquela cidade e ali abrir uma escola. Pelo que diz Vieira dos Santos, aparentemente esse professor aceitou o convite, descontente com o atraso do pagamento de seu ordenado. Deixou como substituto Manoel Lobo de Albertim Lanoia. Esse fato mostra que professores régios poderiam abrir escola particular.   

De qualquer forma, F.Negrão acha que ele foi professor em Paranaguá por alguns anos, a julgar pelo que diz Vieira dos Santos a respeito de suas aulas, de onde “saíram ótimos discípulos, muitos dos quais tomaram ordens sacras, outros seguiram várias ciências, e a maior parte se aplicaram ao comércio”. Afirma ainda, baseado no mesmo cronista, que ele faleceu em 1807 (37).  

No ano de 1789, Vieira dos Santos registra em sua obra uma Provisão Régia de D. Maria I “fazendo mercê a José Carlos de Almeida Jordão, de professor da cadeira de gramática latina, da Vila de Paranaguá”, cargo ao qual é reintegrado em 1810, por mais seis anos (ele exercia a cadeira desde 1780). Assim, FJM pode ter tido aulas (inclusive particulares) com os professores Amaral Gurgel, Lanoia ou Almeida Jordão.   

                                                             *

  A julgar pelos dados disponíveis, FJM foi uma personalidade importante em sua comunidade. É mencionado várias vezes na “Memória Histórica de Paranaguá” de Vieira dos Santos, escrita em 1850, e também na “Genealogia Paranaense” de Francisco Negrão, publicada em 1926, onde tomei conhecimento de sua existência, e dos descendentes.

  Dentre as “famílias mais principais” de Paranaguá de então, Vieira dos Santos cita a dos “Munhozes” (38).

  O nome de FJM e também de seus parentes constam na “Sinopse dos cidadãos paranaguenses da principal nobreza que têm servido os cargos da governança na mesma cidade desde o ano de 1800 a 1850”, incluída na obra de Vieira dos Santos (39). Cargo da “governança”, no caso, significa certamente ter sido ele membro da Câmara Municipal. Satisfazia assim aos critérios pecuniários, e outros, estabelecidos na Constituição Imperial de 1824 para ser votado.

Mas não é como vereador que ele assina ata de uma vereança da Câmara de Paranaguá, realizada em 18 de novembro de 1820, conforme o livro respectivo, transcrita por Vieira dos Santos (40). Tal reunião contou com a presença do Ouvidor Geral e Corregedor da Comarca, Juiz de Fora, três vereadores, o procurador e o escrivão, além de gente da “nobreza da vila”, caso de algumas pessoas, dentre as quais Joaquim Antônio Munhoz e FJM (que assina por último a ata, em 21º lugar, talvez por ser o mais moço; Joaquim é o 13º a assinar). Todos assinam (a começar pelas maiores autoridades, o Ouvidor Geral e o Juiz de Fora) após o registro dessa reunião no Livro de Vereanças, onde se afirma que eles se reuniram ali para “para efeito de se dar cumprimento ao ofício do Exmo. General desta Província relativo à determinação da Carta Régia de 17 de julho do corrente”, Carta essa que se referia à “fatura da Estrada de Curitiba”. Relativamente a essa finalidade principal da reunião, os presentes concordaram em “se pedir a El Rei (D. João VI) a graça de mudar a Estrada da Graciosa para a dos Morretes”, além de outros assuntos. O Corregedor ficou “encarregado de pôr na presença de Sua Majestade”. Como aí é mencionada também uma representação da Câmara de Curitiba, supõe-se que tanto Curitiba como Paranaguá viam como mais favorável aos seus interesses naquela conjuntura a estrada ligando o litoral ao planalto que passava por Morretes, em vez da Estrada da Graciosa. Preferiam assim o chamado Caminho do Itupava (ou do Cubatão), que começava em Porto de Cima, próximo a Morretes.        

  Vieira dos Santos registra em sua cronologia, quase dois anos depois, uma sessão solene da Câmara de Paranaguá realizada em 12 de outubro de 1822 em regozijo pela independência do Brasil ocorrida há pouco, na qual os presentes juraram “obediência e fidelidade ao Imperador Constitucional do Brasil o Senhor Dom Pedro I”. Enfatizando esse caráter constitucional, aclamam o Imperador desde que ele se comprometa previamente a “jurar, guardar e manter e defender a Constituição que fizera a Assembléia Geral e Constituinte e Legislativa do Brasil”. Participaram do evento, além do Ouvidor da Comarca e do Juiz de Fora, “oficiais da Câmara, autoridades eclesiásticas, civis e militares, nobreza e povo” e 76 pessoas assinaram a respectiva ata (41).  

  No ano seguinte, os nomes de Joaquim Antônio Munhoz e José Bernardo Munhoz (42) constam do rol de signatários de uma manifestação, datada de 23 de março de 1823, da Câmara de Paranaguá, declarando nula “a cláusula de prévio juramento de S. Majestade Imperial à futura Constituinte, inserta na ata da aclamação celebrada por esta Câmara” em 12 de outubro de 1822, confiando assim na “constitucionalidade de S. Majestade”. Vieira dos Santos informa ainda que o documento foi encaminhado a S.Majestade por meio da Secretaria de Estado dos Negócios do Império (43).  

  Quanto à Constituição, em 2 de fevereiro de 1824 a Câmara de Paranaguá encaminhou uma representação dirigida ao Imperador, assinada, dentre outros, pelo Tenente FJM (juntamente com o Cap. Joaquim Antônio Munhoz). Os 52 signatários -- membros da Câmara, clero, nobreza e demais cidadãos da Vila -- rogam à Majestade Imperial sancionar projeto de Constituição que fora encaminhado à Câmara anteriormente (44). Isso de fato ocorrerá em 25 de março de 1824, data em que foi sancionada a primeira Constituição do Brasil. A representação é reveladora da valoração que essas lideranças parnanguaras atribuíam aos princípios liberais e à monarquia constitucional.

  A lei de 1º de outubro de 1828, que dispunha sobre as câmaras municipais de cada cidade e vila do Império, estabelecia, em seu art. 1º, que as câmaras da vila se comporiam de sete membros e de um secretário (Paranaguá era então uma vila; só foi elevada a cidade em 1842).

  Essa lei dispunha que podiam ser vereadores todos os que pudessem votar nas assembleias paroquiais, tendo dois anos de domicílio dentro do Termo (art. 4º). Segundo a Constituição de 1824 (art. 92), podiam votar nessas assembleias: 1) os que tivessem 25 anos ou mais (porém os que tivessem menos de 25 anos mas fossem casados, oficiais militares, bacharéis formados ou clérigos de ordens sacras também poderiam votar); 2) os que não fossem filhos-família que estivessem em companhia dos pais (exceto se servissem ofícios públicos); 3) os que não fossem “criados de servir”; 4) os que não fossem religiosos dos claustros e 5) os que não tivessem de renda líquida anual pelo menos 100$ “por bens de raiz, indústria, comércio ou emprego”.  Os cidadãos que compunham tal assembleia escolhiam os eleitores da paróquia e podiam também votar na eleição de vereadores (45). FJM, sendo vereador, satisfazia assim a esses critérios elitistas da época.  

  Na obra citada de Vieira dos Santos o nome de FJM consta também na relação de pessoas que contribuíram financeiramente para a “fatura da estrada desta Vila (Paranaguá) para a freguesia de Morretes, com a comunicação para a central de Curitiba, conforme reunião da Câmara de Paranaguá em 24 de maio de 1831. FJM contribuiu com 4$000, a mesma contribuição de Floriano Bento Viana, que entrou para a nossa história no episódio conhecido como “Conjura Separatista”. Na relação também consta o nome de José Bernardo Munhoz, que “ofereceu serviços para administrar”, e o dos cunhados de FJM Antônio José de Carvalho e Bento José de Siqueira (cada um contribuiu com 6$400) (46).


  Pelos fatos conhecidos, deduz-se que FJM desfrutava de boa situação econômica, o que não era o caso de outros Munhoz em Paranaguá naquela época. O próprio Vieira dos Santos cita um certo Antônio José Munhoz que passaria a receber um auxílio financeiro de 60 réis diários da Ordem Terceira de S. Francisco das Chagas, conforme deliberação de sua congregação em 1820, “por impossibilidade de doenças e não poder trabalhar” (47).  

  Florêncio casou-se com uma trineta de Baltazar Carrasco dos Reis (48),  cuja descendência é o título inicial do volume I da “Genealogia Paranaense”. FJM incorpora-se assim a esse tronco familiar, dos mais tradicionais, pelo casamento com Luíza Lícia de Lima. Ela era filha do capitão Agostinho da Silva Vale -- pessoa importante na época, cujo nome é um verbete do Dicionário Histórico-Geográfico de Ermelino de Leão (49) -- e de sua segunda esposa, Maria Ângela de Lima, que se casaram em Curitiba no ano de 1786, conforme F. Negrão. O Dicionário afirma que ele descendia, pelo lado paterno, das famílias Martins Leme e Carrasco dos Reis e, pelo lado materno, do sargento-mor Manoel do Vale Porto, fundador de Antonina (50) (de quem Luíza Lícia era bisneta). Francisco Negrão afirma que o cap. Agostinho (juntamente com o alferes José da Costa Pinto) foi arrematante do contrato de arrecadação das passagens e cargas dos portos do rio Cubatão e dos rios situados entre o Cubatão e o S. Francisco (51).  Tal contrato referia-se ao triênio 1778-1780. Novo contrato, relativo ao triênio seguinte, 1781-1783, foi arrematado por Agostinho em sociedade, inicialmente, com Manoel Gonçalves Guimarães e depois, com Manoel Lourenço Pontes (v. nota 54, abaixo).   

  Esse contrato, segundo Samuel Guimarães da Costa, referia-se a “um serviço de navegação fluvial cuja concessão dependia do distante Governo de São Paulo através da Junta da real Fazenda” (52).  

O Contrato das Passagens do rio Cubatão

(nome antigo do Nhundiaquara) fazia parte de um tipo de concessão de uma época de privilégios e protecionismos, que somente podia beneficiar figuras de projeção local e de bom trânsito nos altos círculos sociais e políticos da Capitania, homens abastados em condições de assumir compromisso de prestar serviços de interesse público de grande responsabilidade (53).

Mais adiante, afirma o mesmo autor:

    Pelo que diz Júlio Moreira, esse Contrato das Passagens que funcionava como serviço de navegação do Nhundiaquara, com posto fiscal no Porto de Cima e/ou em Morretes, devia ser um dos negócios mais rendosos, quer para o Erário Real, quer para os próprios contratantes, e muito disputado entre os homens abastados e detentores de influência política (54).  

  Não só as vinculações familiares indicam o “status” social de FJM. Também a sua condição econômica, ou principalmente esta, uma vez que é sobre a base econômica que se define a estrutura de classes sociais. Nessa sociedade em que as classes dominantes são as que detêm a posse da terra e de escravos, FJM era senhor de ambos, embora não dos maiores, pois seu nome não consta na relação, preparada por Vieira dos Santos, dos principais “proprietários fazendeiros” da região. Todavia, consta aí o nome do cunhado de FJM Antônio José de Carvalho, dentre os “proprietários que têm suas fazendas de agricultura e nelas fábricas de cana, arroz, mandioca e a maior parte com propriedades na Cidade e senhores de 15 a 30 escravos (55).  

  Na obra de Samuel G. da Costa antes referida, uma biografia do último capitão-mor de Paranaguá (1782-1857), contemporâneo de FJM, lê-se ainda o seguinte:

    O tipo de ocupação agrícola, de estilo patriarcal e latifundiário, que se adotou no período colonial e emprestou características peculiares ao chamado Brasil lusotropicalista, não foi exatamente o mesmo na parte meridional da Colônia. Mas nas terras férteis, quentes e úmidas da baía de Paranaguá, principalmente na transição do século XVIII para o XIX, são muitas as similitudes, onde em propriedades rurais relativamente grandes houve um período de esplendor tal como o que ocorreu no Nordeste açucareiro, no Recôncavo baiano e na Baixada fluminense. Esse fastígio, ainda que não muito duradouro, não poderia ter existido sem o concurso do braço africano, mediante o regime de trabalho escravo então adotado (56).

  Na sequência, o autor refere-se à elevada incidência dos escravos na população de Paranaguá e região: em 1772, representavam 44% e em 1830, 25% do total (segundo D.P.Müller, referido antes, 18,4% em 1838). A concepção de Gilberto Freyre quanto ao caráter da colonização portuguesa no Brasil seria assim aplicável à Paranaguá da época.
 
  FJM fazia parte dessa sociedade patriarcal, dominada pelos senhores de terra e escravos.  Nela, o trabalho no campo e na cidade, inclusive doméstico, era feito por escravos, cujo tráfico, nacionalmente (conforme a historiografia brasileira), só cessaria de fato após 1850, com a lei Eusébio de Queirós, embora já houvesse lei anterior, de 1831, que o proibia.   

  FJM e sua família deviam viver numa casa compatível com seu “status” social, contando com o conforto permitido pelas condições da época, em que praticamente todos os objetos eram importados da Europa (móveis, lustres, tapetes, louça, talheres, piano, objetos de decoração, tecidos, vinhos, produtos alimentares etc).  Ao luxo da casa grande, que se abria ao visitante em ocasiões festivas, naturalmente se contrapunha a pobreza da senzala. Para muitos senhores, os escravos não eram vistos como pessoas, titulares de direitos, e sim como bens de produção, algo semelhante aos semoventes, que os fazendeiros também possuíam. Mas os cativos não se conformaram com essa concepção, e resistiram a ela, também no campo jurídico, especialmente a partir da lei de 1871 (lei do Ventre Livre), promovendo ações para obter sua liberdade e para arbitramento das indenizações (abaixo do preço de mercado) ao proprietário visando a sua alforria...(57). Os escravos eram usados para todo tipo de trabalho e por todas as organizações, inclusive filantrópicas e religiosas.  

  FJM era proprietário rural, criador e lavrador. Vieira dos Santos assim se  refere a ele no capítulo IV da “Memória Histórica de Paranaguá”, dedicado à descrição das suas baías, dos rios que nelas deságuam e dos “estabelecimentos de agricultura mais notáveis em suas margens”. Em meio a tal descrição menciona o rio Itinga ou Tinga, constatando “próximo a ele um grande campo de criação de gado onde tem mais de 80 reses com muitas vacas de criação, propriedade de Florêncio José Munhoz” (58).  

Francisco Negrão, certamente baseando-se no “pai da historiografia paranaense”, afirma que FJM “era proprietário, no Itinga, de um grande campo de criação de gado, onde possuía mais de oitenta reses, com muitas vacas de cria; foi adiantado lavrador” (59).  

  No Dicionário de Ermelino de Leão consta o seguinte a respeito de “Itinga:

(I-rio, tinga-branco). Rio que rega o mun. de Paranaguá e deságua na baía entre as barras dos rios Bocuriuna e Itinguçu. Outrora houve aí uma fazendola de propriedade de Florêncio José Munhoz. O terreno foi reg. na paróquia de Paranaguá sob o n.5” (60).

  Como lavrador, os produtos cultivados por FJM deviam ser, principalmente, aqueles mais comuns na região -- a mandioca (para produzir farinha), arroz e cana-de-açúcar, sendo possível também a presença de engenhos (de pilar arroz, de açúcar) em suas fazendas.

  Além dessa propriedade junto ao rio Itinga, que deságua na baía de Paranaguá, no lado oposto ao da cidade, Ermelino de Leão (61) menciona outra: um sítio em Canavieiras, município de Paranaguá, com 300 braças de frente, adquirido em 1848 (suponho que o sítio situava-se junto ao rio do mesmo nome). Próximo dali, em Boa Vista, localizava-se propriedade de Manoel Antônio Pereira (1782-1857), o último capitão-mor de Paranaguá (cargo equivalente hoje em dia ao de prefeito), assim descrita por Vieira dos Santos:

por ser hum lugar dos mais formosos que tem naqueles contornos e nelle há famozo estabelecimento com armazéns para se fazerem as compras de generos e hua caza de negocio que hé do proprietário Capitão mór Manoel Antonio Pereira (...). Nessa propriedade funcionava também moinhos de pilar arroz e mandioca e fábrica de aguardente, olaria, armazens e paiós e, ainda casas de moradia senzalas e muita escravatura” (62).  

Os mapas anexos (63) mostram a localização do rio Itinga e também do Canavieiras (obs: v. mapas no final desta seção 3.2). 

  A propriedade do Itinga está registrada sob o nº 750 no Livro de Registro de Terras da Paróquia de Paranaguá, conforme determinou a lei nº 601, de 18 de setembro de 1850, e decreto nº 1318, de 30 de janeiro de 1854. O Livro consta do acervo do Arquivo Público do Paraná, onde o consultei. Este é o teor do registro (negritei, DVE): 
 
Nº 750- Florencio José Munhós morador desta Cidade vem declarar conforme o Regulamento de trinta de janeiro de mil, oitocentos e cinqüenta e quatro artigos noventa e três e cem; que é senhor e possuidor de uma fazenda no lugar denominado Itinga, ou Hixiry-Pyjussara, distrito desta Cidade, compreendendo um campo de criar e cultivados bem como outros terrenos comprados a diversos por escrituras públicas; cujos cultivados são contíguos à mesma fazenda. As divisas são pela parte de cima a encontrar com terras de Felipe Tavares de Miranda a sair a várzea e pelo lado debaixo pelo rio Itinguassu a encontrar com terras de Joaquim Cordeiro e Rafael Pinto, e de aí para o sertão; cuja posse da dita fazenda obteve por herança de sua finada tia Dona Catharina Maria do Espírito Santo em seu testamento no ano de mil oitocentos e quarenta: os fundos tanto da Fazenda como dos cultivados comprados por escrituras a diversos como acima disse, vão dar ao sertão, e a frente não está medida. A extensão poderá ser mais ou menos de mil e quatrocentas braças mais ou menos o que por ser verdade mandei passar dois de um teor que assino. Paranaguá dezoito de Maio de mil oitocentos e cinqüenta e seis – Ilustríssimo Senhor Reverendo Vigário Colado desta Paróquia – Florêncio José Munhós – Nada mais se continha nesta declaração que em cumprimento ao artigo 103 do Regulamento citado a que fiz fielmente registrar, cujo exemplar a que me reporto, numerei, anotei, e emassei, segundo o artigo 104 do mesmo Regulamento.  Nesta Cidade de Paranaguá aos 22 de Maio de 1856. O Vigr. Col.do Gregório José Lopes Nunes.

  (Nota-se que o registro da propriedade foi feito pouco mais de 3 meses antes de FJM falecer. Estaria já doente, ou prevendo seu próprio fim?).

   Como uma braça equivalia a 2,2 m (64), a extensão mencionada, de 1400 braças de frente, correspondia a 3,080 km (e o sítio de Canavieiras antes referido tinha 660 m de frente).  

  F. Negrão nos informa que Dona Catharina Maria do Espírito Santo, casada com o alferes Candido Xavier dos Anjos, era mãe de Catharina Maria Xavier, prima de Luíza Lícia (a esposa de FJM), pois se casou com Ignácio José Diniz, filho de seu tio José Nery de S. Maria, irmão de Agostinho da Silva Vale (65). D.Catharina já era viúva em 1829, quando foi madrinha de batismo de Maria Lícia, filha de FJM, como vimos. Segundo F. Negrão, ela faleceu em 21 de janeiro de 1838. Se issa informação for correta, o seu testamento, referido acima, não pode ser de 1840, mas anterior a essa data. 

O nome de D. Catharina aparece na relação de pessoas, transcrita por Vieira dos Santos (66), que contribuíram financeiramente em 1826 para dar começo à obra de um novo frontispício da capela do Senhor Bom Jesus dos Perdões em Paranaguá. Ela contribuiu com 6$400. Subscrição posterior viabilizaria a construção das paredes do corpo da igreja.  

  Em 1840, o nome de FJM constou de uma relação dos exportadores de mate pelo porto de Paranaguá (67). Certamente FJM exportava o mate que seu filho, Caetano José Munhoz, produzia serra acima, pois aí se estabelecera em 1834.  O mate era transportado então em lombo de burro para o litoral.

  Segundo diversas referências na historiografia paranaense, Caetano foi um dos primeiros a implantar engenho de erva-mate em Curitiba, naquele ano de 1834, e ocupou um papel importante no desenvolvimento dessa atividade econômica em nossa terra, até falecer, em 1877. Seu Engenho da Glória originou posteriormente as Imperiais Fábricas de Erva-Mate de Francisco Fasce Fontana (68). Logo depois, em 1836, o futuro sogro de Caetano, João Gonçalves Franco, requer à Câmara Municipal de Curitiba, juntamente com outros, concessões de terras e águas para a instalação de engenho de soque de erva-mate (69).  

  No livro “Álbum de Memórias- A trajetória das Indústrias no Paraná” as autoras afirmam que CJM registrou o Engenho da Glória em 27 de julho de 1834, salientando que essa empresa e o Banco da Bahia “foram as primeiras firmas registradas no Brasil”. Mas infelizmente não informam em que se baseiam para fazerem tal afirmação (70).  

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  O círculo social de FJM, representado pelos membros das associações filantrópicas a que pertenceu, incluía as pessoas mais notáveis da região, vinculadas às famílias Correia (antepassados do Barão do Serro Azul), Guimarães (antepassados do Visconde de Nácar), Leão etc.

  Nesses tempos de instabilidade política, posteriores à abdicação de D. Pedro I, ocorrida em 7 de abril de 1831, num Brasil recém-independente, constituiu-se em 9 de outubro do mesmo ano, em Paranaguá, a Sociedade Patriótica dos Defensores da Independência e Liberdade Constitucional, como nos informa Vieira dos Santos (71). A Sociedade era presidida pelo Cap. Joaquim Antônio Guimarães, pai do futuro Visconde de Nácar, Manoel Antônio Guimarães (1813-1893), e secretariada pelo Ten-Cel Manoel Francisco Correia, avô do Barão do Serro Azul (1849-1894). 

  Paranaguá, ao criar tal Sociedade, acompanhava uma tendência nacional e seguia o exemplo de outras cidades, imbuídas dos mesmos princípios do movimento liderado por Evaristo da Veiga, jornalista e político, incentivador da Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional, fundada no Rio de Janeiro em 19 de maio de 1831. 

De acordo com a “História do Brasil” de L. Koshiba e D. M.F. Pereira (72),  após a abdicação de D.Pedro I, e até a antecipação da maioridade de D.Pedro II, em 1840, o país, governado por regentes, passou por um período muito conturbado. Nesses anos, os autores referem-se a três tendências políticas: a dos restauradores ou “caramurus”, a dos moderados ou “chimangos” e a dos exaltados, “farroupilhas” ou “jurujubas”. Enquanto os primeiros agrupavam-se em torno da Sociedade Conservadora, depois Sociedade Militar, “da qual faziam parte os Andradas”, e os exaltados, associados às camadas urbanas, em torno da Sociedade Federalista, os moderados se agrupavam em torno da Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional.

Essa Sociedade, de acordo com a obra citada, compunha-se dos

grandes proprietários de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Politicamente eram monarquistas, mas contrários ao absolutismo. Do ponto de vista administrativo, defendiam o centralismo como garantia da unidade territorial. Os principais representantes eram Evaristo da Veiga, que editava o jornal Aurora Fluminense, padre Antonio Feijó e Bernardo Pereira de Vasconcelos.

A mesma obra afirma que em maio de 1831 constitui-se a Regência Trina Permanente e que os moderados eram então os “donos do poder”. Posteriormente, o padre Feijó assume o Ministério da Justiça. Na opinião de Raymundo Faoro, citado pelos autores,

a maior obra em favor da ordem, do partido moderado, foi a realizada fora do governo, com a criação de duas instituições: a Sociedade Defensora e a Guarda Nacional. A elas deveu a Regência a estabilidade do regime e a permanência da integridade da nação.

Assim prosseguem os autores:

A Sociedade Defensora da Liberdade e da Independência, fundada pelo jornalista Evaristo da Veiga, em 19 de maio de 1831, era integrada pelos regentes, senadores e deputados. Seu principal objetivo era combater os restauradores e os exaltados, influindo nas decisões governamentais. A ela deveu-se, por exemplo, a sugestão da criação da Guarda Nacional, como contrapeso à tropa regular, de fidelidade duvidosa.

Pela lei de 18 de agosto de 1831, criou-se a Guarda Nacional, subordinada ao Ministério de Justiça, extinguindo-se as ordenanças e milícias subordinadas ao Ministério da Guerra. A Guarda Nacional, composta apenas por pessoas de alguma posse, significou a garantia da fidelidade e da ordem social. Não só isso: a Guarda Nacional transformou-se na principal força repressiva da oligarquia agrária e, consequentemente, num dos principais sustentáculos de sua hegemonia.  

A Sociedade criada em Paranaguá tinha também um caráter beneficente. Já no ano de sua constituição (1831), conforme Vieira dos Santos, seus estatutos foram revistos para incluir a criação de um hospital, “logo que a Sociedade pudesse”. Segundo o mesmo cronista, nos registros relativos a 1833 de sua Memória Histórica, “essa sociedade beneficente socorria com a diária a alguns pobres enfermos necessitados para sua subsistência e remédios” (73).

  FJM participou dessa Sociedade, tendo sido eleito um de seus 11 “vogais” (membros da mesa diretora), ainda conforme Vieira dos Santos (74).  A constituição dessa entidade revela as convicções nacionalistas dos seus 48 sócios, com afinidades políticas que nessa conjuntura se expressavam em apoio ao “partido brasileiro”, distante tanto dos restauradores (o “partido português”) quanto dos exaltados. Mais tarde, verifica-se a adesão explícita dos membros das famílias Correia, Guimarães e outras, vinculados a essa Sociedade, ao Partido Conservador, fundado no período regencial e resultante da aliança de “marombistas” (“oportunistas que alteravam posições conforme seus interesses imediatos”), “restauradores de outrora e antigos chefes moderados” (75).  

Em 1835 -- após o desaparecimento do partido restaurador (D.Pedro I morre em 1834) e em plena repressão aos  exaltados (76) -- a Sociedade parnanguara é transformada, por proposta do comendador Manuel Francisco Correia Jr (o mesmo que propusera a sua criação em 1831), em Irmandade de Misericórdia, cujo Compromisso se basearia no da Misericórdia de São Paulo. A Irmandade continuaria a “socorrer os enfermos indigentes”, já atendidos pela Sociedade, e tinha como projeto a construção do hospital da Santa Casa de Misericórdia de Paranaguá (77).

  O comendador M. F. Correia Jr, na própria proposta de transformação da Sociedade Patriótica dos Defensores da Independência e Liberdade em Irmandade da Santa Casa de Misericórdia aponta os motivos que o levaram a criá-la em 1831, assim se referindo a ela:

/.../ a  criação desta sociedade, o que felizmente consegui em tempos calamitosos, e que uma restauração aborrecida ou uma perfeita oligarquia ameaçava o nosso solo, depois do glorioso dia 7 de abril  (78)  

  Correia Jr. (1809-1857), pai de Ildefonso Pereira Correia, o Barão do Serro Azul, estudou latim e humanidades em São Paulo entre 1821 e 1824, segundo C.M. Westphalen (79). Regressando a Paranaguá, assentou praça no Regimento de Milícias, passando a capitão da Guarda Nacional em 1831. Sobre ele, afirma ainda aquela historiadora: “Sua atuação quando da Revolução Farroupilha deu-lhe os títulos de Tenente-Coronel em 1836 e de Chefe de Legião da Guarda Nacional do litoral do Paraná e sul de São Paulo”.

  De fato, Vieira dos Santos (80), refere-se a um decreto de 1839 (baixado durante a Revolução Farroupilha, em que a Comarca se viu ameaçada após a ocupação de Lages) que cria duas legiões de guardas nacionais na Comarca, uma abrangendo Curitiba, Lapa e Castro e outra Paranaguá, Iguape, Cananeia e Antonina. O comendador Correia Jr foi nomeado chefe desta segunda legião.  A primeira coube a João da Silva Machado, o futuro Barão de Antonina, conforme nota de Francisco Negrão a essa passagem da “Memória Histórica de Paranaguá”.  

Vieira dos Santos também menciona Correia Jr como um dos principais proprietários de Paranaguá. Era negociante, dono de imóveis urbanos nessa Cidade e na Vila de Morretes e Porto de Cima, “onde também tem 2 engenhos de soque de erva-mate, e mais de 30 escravos”. Por outro lado, seu pai, considerado pelo cronista o mais importante proprietário de Paranaguá, era possuidor de 58 prédios urbanos, 2 grandes fazendas, fábricas de arroz, aguardente e mandioca, olaria,  uma chácara no Rocio e mais de 50 escravos (81).       

  Após essa transformação da Sociedade Patriótica, FJM passa a ser membro da Irmandade de Misericórdia. Em 1843-4, ocupa o cargo de “mordomo dos presos” quando o provedor da Irmandade era o baiano Dr. Agostinho Ermelino de Leão (1797-1863), juiz de Direito da Comarca,  origem de importante grupo ervateiro do Paraná (82).

  Posteriormente, FJM continua a colaborar em favor da Santa Casa, agora na condição de um dos “irmãos de mesa” administradora. Em 1850 (seis anos antes de falecer), seu nome consta como um dos signatários de ofício, datado de 10 de março, dirigido pela Irmandade ao presidente da Província de S.Paulo encaminhando petições para o reforço financeiro da instituição (o provedor nessa época era Correia Jr.). FJM é signatário também de outro ofício, da mesma data e com o mesmo objetivo, dirigido diretamente à Assembleia Provincial (83).  
 
  Mas FJM já participava há muito tempo (pelo menos desde 1823) de outra irmandade, bem mais antiga, a do SS. Sacramento, que promovia “atos piedosos” na Semana Santa, e também grande festa em louvor do Santíssimo Sacramento. FJM ocupou diversos cargos nela e foi seu provedor em 1847-8, conforme quadro, apresentado por Vieira dos Santos, contendo o nome de todos os administradores da Irmandade desde 1762 até 1850 (84). C.M.Westphalen afirma que a Irmandade do SS.Sacramento era uma das mais antigas da Igreja Matriz de Paranaguá. Em 1705 já estava constituída sua Mesa diretora, e em 1732 fora aprovado o seu Compromisso pelas autoridades eclesiásticas de São Paulo (85).     

  O primeiro cargo que FJM ocupou nessa Irmandade, o de tesoureiro, coincide com o período em que seu provedor era o capitão Joaquim Antônio Munhoz (1823-4). Este mesmo nome, com a patente de tenente, é citado por Vieira dos Santos em seus registros relativos ao ano de 1812. Ele é uma das 26 “pessoas da governança” que atenderam ao pedido do Juiz de Fora de Paranaguá no sentido de contribuir financeiramente para “o roçamento dos matos em derredor da Vila e seu formoseamento e fazer-se a cerca do rocio.” O tenente Joaquim contribui com 1$600 réis (86).

  Posteriormente, em 1844-5, FJM foi escrivão da Irmandade. Joaquim Antonio Munhoz, que foi procurador já em 1799-1800 e seu tesoureiro em 1805-6 e 1811-2, por ser mais velho, devia ser o seu tio referido na nota 42 (irmão de Bento Antônio ou Bento José  Munhoz, pai de FJM, assim com o era José Bernardo Munhoz-- cf notas 4, 7 e 42).  FJM acompanha Joaquim Antonio Munhoz tanto na Irmandade quanto na representação da Câmara Municipal de Paranaguá dirigida ao Imperador, datada de 2 de fevereiro de 1824, já referida, em que se apelava a D. Pedro para que ele sancionasse o projeto constitucional encaminhado anteriormente à Câmara (antes dessa representação, em 23 de março de 1823, Joaquim, juntamente com José Bernardo Munhoz, assina outro documento, também já referido, em que os signatários demonstram confiança na “constitucionalidade” de D. Pedro I, não exigindo dele, previamente, a adoção da Constituição aprovada pela Assembléia Geral como condição para a sua obediência e fidelidade (v. antes, neste mesmo capítulo). Significativamente este documento não é assinado por FJM, demonstrando que este seria talvez menos crédulo que seus parentes quanto à valoração da Constituição por parte do Imperador) (87). Como no “Mapa necrológico”, baseado nos livros das Irmandades do SS. Sacramento e de N.Sra. do Rosário -- incluído no vol. II da “Memória” de Vieira dos Santos -- consta o nome do capitão Joaquim nos óbitos relativos a 1821-22 (e o de sua mulher, D.Augusta, em 1819-20) (88), deduzo que ao falarmos de Joaquim Antônio Munhoz estamos falando de duas pessoas diferentes, homônimas, talvez pai e filho, como no caso do cunhado de FJM, Antonio José de Carvalho, o que era comum ocorrer então (cf nota 8). Lembrêmo-nos que o padrinho de batismo de Maria Lícia, filha de FJM, em 1829 foi o capitão Joaquim Antônio Munhoz, “solteiro” (o que sugere pessoa mais jovem), como já foi dito.       

  O site do Arquivo Nacional contém um artigo interessante sobre as irmandades no Brasil. Nele se lê o seguinte:

De origem medieval, as irmandades são associações voluntárias de leigos, geralmente sediadas em igrejas particulares ou paroquiais e dedicadas ao culto de um santo-padroeiro. No Brasil, as irmandades tinham como objetivo promover a caridade beneficiando e auxiliando seus membros. Destinavam-se a “alimentar os esfomeados, dar de beber aos que têm sede, vestir os nus, alojar os peregrinos, visitar os doentes e os presos.” Dedicavam-se principalmente a organizar os enterros e sepultar os irmãos falecidos. Elas estavam organizadas, de forma geral, em categorias raciais e sociais, que eram formadas pelo branco e o negro, pelo senhor e o escravo, e nelas estavam incluídas também outras matizes de cor, como os mulatos e os pardos. As principais irmandades que reuniam a população branca eram as do Santíssimo Sacramento, as Casas da Misericórdia e a de São Francisco. As dos negros e pardos e mulatos eram as de Nossa Senhora das Mercês, do Rosário, do Amparo, dos Remédios, de São Benedito, São Gonçalo, entre outras (89). 

  Outro site (90), da Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz, disponibiliza um “Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832-1930)”. Segundo essa fonte, as nossas irmandades de misericórdia eram entidades filantrópicas inspiradas naquela que existia em Lisboa no final do séc. XV. Destinavam-se a reforçar a fé católica de seus membros, que se comprometiam com a prática de obras de caridade, tanto materiais quanto espirituais. Todavia, tais entidades apresentavam um caráter elitista. Conforme o Compromisso da Irmandade da Misericórdia de Lisboa, impresso em 1516, reformado em 1618, e “que se manteve praticamente inalterado até o século XIX”, não eram aceitos como membros aqueles que tinham sangue negro, mouro ou judeu, que não sabiam ler nem escrever, que não tinham um certo nível de renda etc.  Como diz um autor citado no texto do site,

O ingresso na Irmandade da Misericórdia significava, assim, o reconhecimento social das posses e a possibilidade de ampliá-las, já que os créditos bancários e comerciais abriam-se para o associado.

Os cargos das mesas diretoras eram ocupados conforme as posses das pessoas, ou melhor de suas contribuições pecuniárias. Na Irmandade do Santíssimo Sacramento da Matriz de Curitiba, conforme Ermelino de Leão, os irmãos pagavam a contribuição anual de 400 réis. Mas os membros da diretoria contribuíam assim: mesários: 2$000; escrivão: 16$000; provedor: 32$000, “importância muito elevada para a época”) (91). Os provedores deviam ser escolhidos dentre as pessoas de maior importância econômica e social na comunidade.

  Nascimento Júnior, em artigo sobre a Irmandade de Misericórdia de Paranaguá (92), confirma o que foi dito acima:

Nesse tempo (após 1841, acrescento eu, DVE) ser Irmão da Misericórdia era honra disputadíssima, embora pagando 4 patacões de jóia de entrada, isto é, 3$840 e até 1849 era avultadíssimo o número de membros da Irmandade. E se ser Irmão já constituía honraria de alto quilate, ser eleito para a Mesa, dava ao escolhido um destaque social apenas reservado aos homens de maior importância da cidade. 

  Como se viu, FJM sempre participou dessas irmandades. A caridade cristã era objetivo que almejava alcançar, pelo menos formalmente. Mas ele e a sociedade em que vivia não percebiam o conflito existente entre o ideal cristão e a exploração do trabalho mais clamorosa, a do escravo, que fazia parte da vida cotidiana de então como coisa normal, inclusive para representantes da igreja como os padres e as irmãs de caridade, que em suas ações também se apoiavam no trabalho escravo.

                                                             * 

 
  Por fim, deve-se mencionar que FJM era Tenente de milícias (e o sogro de seu filho Caetano, João Gonçalves Franco, era Ajudante, equivalente a Capitão (93)). É possível imaginá-lo em seu uniforme vistoso, aquele descrito por Vieira dos Santos (94), que abrangia farda azul com gola vermelha, mesma cor das extremidades das mangas, dragonas de prata, barretina alta e preta, com viseira e pluma branca.

Segundo Caio Prado Jr (95), “As forças armadas das capitanias compunham-se da tropa de linha, das milícias e dos corpos de ordenanças. A primeira representa a tropa regular e profissional, permanentemente sob as armas”. As milícias eram tropas auxiliares, organizadas como as de linha em regimentos e recrutadas

por serviço obrigatório e não remunerado, na população da colônia. Eram comandadas por oficiais /.../ e também por algumas patentes regulares destacadas para as organizar e instruir. O enquadramento das milícias se fazia numa base territorial (freguesias), bem como e, sobretudo, pelas categorias da população.

Quanto às ordenanças, elas eram “formadas por todo o resto da população masculina entre 18 e 60 anos, não alistada ainda na tropa de linha ou nas milícias”, inclusive os eclesiásticos.

Ao contrário das milícias, as ordenanças constituem uma força local, isto é, que não podia ser afastada do lugar em que se formava e em que residiam seus efetivos.

Toda a população, dentro daquela faixa etária, era “automaticamente engajada” nas ordenanças. “Limitava-se sua atividade militar a convocações e exercícios periódicos, e, eventualmente, acorrer quando chamadas para serviços locais: comoção intestina, defesa, etc.” As ordenanças eram formadas por terços, divididos em companhias. O comandante do terço, que incluía toda a população do termo, era um capitão-mor (que corrresponde a coronel, enquanto sargento-mor a major, ou tenente-coronel). “As companhias, comandadas por um capitão, um tenente e um sargento ou alferes, compunham-se de 250 homens, e se dividiam em esquadras de 25 homens cada uma, comandadas por um cabo”. As ordenanças, segundo ainda Caio Prado, tiveram “um papel considerável na administração geral da colônia”. O “Dicionário do Brasil Colonial” sintetiza tal papel nesta afirmação: elas “auxiliavam na manutenção da ordem pública, na realização de obras públicas e na coleta de determinados tributos” (96).

Em 1765 foi restabelecida a Capitania de São Paulo (que já existia desde 1720, mas ficara subordinada à do Rio de Janeiro em 1748), assumindo como governador D. Luís Antônio de Souza Botelho Mourão, o Morgado de Mateus, o qual exercerá o cargo por dez anos. O governador da capitania tinha patente de capitão-general (97).    

Nessa época Portugal estava novamente em guerra com a Espanha, reiniciada em 1761, como já foi dito, após a anulação do Tratado de Madri, o que significou a renovação das disputas pelos territórios sul-americanos.       ujo governador tinha patrente de capit31, com a criaç
 
Conforme Vieira dos Santos, em 1766 Aviso Régio

dirigido ao General da Capitania Dom Luis Antônio de Souza Botelho Mourão ordenou que     no Distrito de sua Capitania fizesse alistar toda a gente sem exceção de nobres, plebeus, brancos, mestiços, indígenas; e libertos./.../. Em consequência dessas ordens se alistaram em toda a Comarca 11 companhias de infantaria, e 3 de cavalaria de Curitiba /.../, e que todas compunham o corpo de um regimento de auxiliares e do qual foi sargento-mor Francisco José Monteiro de Castro oficial de tropa de linha por patente de 5 de setembro de 1767, sendo ajudante do mesmo corpo Manoel da Cunha Gamito, também de tropa de linha, a ensinar-lhes os exercícios militares

(acrescenta Vieira dos Santos, em nota, que esses corpos de milícias auxiliavam a tropa de linha, “quando se precisava deles em ocasiões de guerras”) (98).

  Em 1821 ocorreu em Paranaguá um fato marcante na história da nossa emancipação política da província de S.Paulo. O sargento de milícias Floriano Bento Viana (1786-1850), após o juramento das bases da constituição portuguesa (que representaria o fim do absolutismo no Reino de Portugal, Brasil e Algarves, consequência feliz da Revolução Liberal do Porto ocorrida no ano anterior) (99), manifestou-se verbalmente pela emancipação da Comarca. Isso perante o Juiz de Fora, e com a presença dos membros da Câmara e da tropa formada. Mas seus companheiros milicianos, que haviam planejado esse ato político para aquela ocasião, permaneceram calados, não se solidarizando com ele (100). Teria tido o Tenente FJM alguma participação nessa “Conjura Separatista”, como ficou conhecido esse episódio na história do Paraná?  Ou teria apenas estado ali presente, participado desse juramento e assinado o respectivo termo, sendo uma das “cinqüenta e sete pessoas de autoridades e oficiais de patentes” que o fizeram, conforme relata Vieira dos Santos (101)?

  No período de vida de FJM, ocorreram alguns movimentos militares, que contaram com a participação das Milícias de Paranaguá e Curitiba.

Romário Martins refere-se à campanha contra o caudilho Artigas, da Banda Oriental, em 1816, que mobilizou milicianos da Comarca em defesa do Rio Grande (102).  

Em 1824, conforme Vieira dos Santos (103), o coronel de engenheiros Daniel Pedro Müller esteve em Paranaguá avaliando as condições locais uma vez que fora encarregado pelo Imperador de elaborar um plano de defesa da costa da província de São Paulo, razão por que recomendava “armar os corpos de milícias e ordenanças”.  No ano seguinte, o inspetor geral das milícias também ali esteve, passando revista no regimento de Paranaguá. Essas ações certamente decorriam da preocupação do governo imperial com os líderes revolucionários da região do Prata. Em 1825 intensificou-se o movimento da insurreição da Província Cisplatina (atual Uruguai), integrante então do Império do Brasil, o que fez nosso país declarar guerra às Províncias Unidas do Rio da Prata (atual Argentina) a quem aquela província rebelde pedira anexação. 
  
Em 1835 inicia a Guerra dos Farrapos na província de São Pedro do Rio Grande do Sul que se estenderá por dez anos. C.M.Westphalen afirma (104) que o Comendador Manoel Francisco Correia Jr promoveu mobilizações da Guarda Nacional em Paranaguá para reforçar as forças sediadas em Rio Negro, local estratégico, ameaçado pelo avanço dos farrapos. Correia Jr. arregimentou dois batalhões do litoral, um da Guarda Nacional de Paranaguá com 150 homens, e outro, da Guarda Nacional de Antonina com 60 homens. Além disso, na condição de Chefe da Legião da Guarda Nacional do litoral sul da província, se encarregou também dos trabalhos de defesa de Paranaguá, nos quais certamente contou com a colaboração do tenente FJM, seu colega na administração da Irmandade da Santa Casa de Paranaguá.  

  Correia Jr. posicionou-se a favor do governo imperial num período crítico, em que o Império era desafiado pelos líderes da Guerra dos Farrapos e também da Revolução Liberal de 1842, liderada por Rafael Tobias de Aguiar. Aspirava todavia em troca dessa lealdade a emancipação da sua Comarca da província de São Paulo (da qual aliás Tobias de Aguiar fora presidente durante muitos anos). Nesse sentido, percebendo a ocasião de explorar uma oportunidade política, após declarar seu apoio ao Império (que receava perder a Comarca de Paranaguá e Curitiba para os rebeldes), ele foi inspirador de uma manifestação do colégio eleitoral de Paranaguá dirigida ao Imperador em 1842 pela emancipação da Comarca, e também de uma representação no mesmo sentido, encaminhada pela Câmara ao presidente da província em 1843. Vieira dos Santos registra tais fatos em sua cronologia, e faz na sequência o elogio de Correia Jr na “Memória Histórica de Paranaguá” (105).

  A família Correia vinculava-se ao Partido Conservador em Paranaguá, grupo político ao qual devia pertencer também FJM, haja vista a composição do seu círculo social, revelado pela análise das entidades associativas das quais participou antes referidas.

                                                              * 

  No final da vida, o nome de FJM é mencionado no recém-fundado  “Dezenove de Dezembro” em duas ocasiões, no ano de 1854 (uma em abril e outra em setembro): a primeira quando foi nomeado 5º suplente de juiz municipal de Paranaguá e Guaratuba, para o quadriênio 1854-8, pelo Conselheiro Zacarias (106). A outra, quando  foi  concedida a sua demissão do cargo de 5º suplente de delegado de polícia de Paranaguá (107).

  FJM faleceu em 23 de agosto de 1856, aos 65 anos de idade. Faleceu de “apoplexia” (ou derrame cerebral), conforme o registro de seu óbito (108). Em nota publicada no jornal “Dezenove de Dezembro” de 10 de setembro, p.4, Caetano José Munhoz e sua mãe, D. Luíza Lícia de Lima Munhoz, agradecem às pessoas que levaram o tenente Florêncio José Munhoz ao seu jazigo e compareceram à “missa solene de requiem celebrada na ordem 3a. de S. Francisco da Penitência” de Paranaguá. Consta no registro de seu óbito que ele foi sepultado no cemitério dessa Ordem Terceira, “de que era irmão” (109). Diferentemente das outras irmandades, as ordens terceiras “se subordinavam, institucional e espiritualmente, a uma ordem religiosa determinada” (110). No caso, a subordinação era à ordem de S. Francisco. Essa Irmandade da Ordem Terceira é muito antiga. Data de 1700, mas teve seu Compromisso aprovado somente em 1746, antes da construção de seu templo, a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco das Chagas, situada na rua XV em Paranaguá, que ocorreu no período 1770-1784. O cemitério referido localizava-se ao lado direito da igreja. Eram aí sepultados os membros da sua Ordem Terceira (111).  

  D. Luíza Lícia, por sua vez, faleceria no ano seguinte, 1857, conforme convite para missa de 7º dia publicado no “Dezenove de Dezembro” de 15 de agosto desse ano, p. 4. Quem convidava era seu filho Bento Florêncio. E a missa seria realizada no dia 18 ,na igreja do Rosário, em Curitiba.  


NOTAS

(1) Cf. verbete “Munhoz” no “Dicionário das Famílias Brasileiras”, de Carlos Eduardo de Almeida BARATA e Antônio Henrique da Cunha BUENO. 2 v.- S.Paulo: IberoAmérica Comunicação e Cultura S.C. Ltda, s.d.- v. II, p. 1578.

(2) MUNHOZ, Alcides—“Folhas Cadentes”- op cit,  (Elogio do Patrono). Curitiba: Irmãos Guimarães & Cia, 1925- p.11-12.

(3) NEGRÃO, Francisco – “Genealogia Paranaense”, v.I, Curitiba, 1926- p. 235 (ed. fac-similar da Imprensa Oficial do Estado)

(4) O trabalho de Ricardo Costa de Oliveira que contém os resultados de sua pesquisa está disponível no site abaixo, acessado em 20.01.2011 (quanto ao processo de dispensa matrimonial, ele está arquivado na Cúria de São Paulo com a identificação seguinte: 6-41-2075):

(5) SANTOS, A. Vieira dos – “Memória Histórica de Paranaguá”. Curitiba: Vicentina, 2001- v.I, p. 205.

(6) SANTOS, A.Vieira dos – “Memória Histórica de Paranaguá”. Curitiba: Vicentina, 2001- v.II, p. 62;  NEGRÃO, Francisco- “Genealogia Paranaense”- v.6. Curitiba, 1950- p. 275. 

(7) SANTOS, A. Vieira dos— op cit, v.II, p. 65. O cronista menciona ainda um Bernardo José Munhoz, ou José Bernardo Munhoz, vereador da Câmara de Paranaguá em 1809, citado na mesma página de duas maneiras diferentes (cf. Santos, A. Vieira dos— op cit, v.I, p.215 e nota). Há uma outra menção, ainda nessa obra, ao “irmão síndico” Bernardo José Munhoz, que recebeu certas importâncias decorrentes da venda de escravos da Ordem 3ª. de S. Francisco das Chagas, conforme deliberação da mesa tomada em 12 de dezembro de 1812. Na sequência dos registros, alguns anos mais tarde, em 17 de setembro de 1816, a mesma Ordem tomava as contas ao síndico José Bernardo Munhoz (cf. Santos, A. Vieira dos – op. cit., v. II, p. 136-137). Vale ressaltar ainda que um alferes José Bernardo Munhós constou no Inventário dos Bens Rústicos, realizado na Capitania de S.Paulo em decorrência de um “aviso régio” de 1817. Era um dos “principais proprietários” rurais de Paranaguá, dono de 9 escravos e produtor de arroz, que comercializava (cf. OLIVEIRA, Ricardo Costa de—“O Silêncio dos Vencedores”, op cit, p.42 e RITTER, Marina Lourdes—“As Sesmarias do Paraná no Século XVIII”. Curitiba: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, 1980- p. 199). Outro trabalho de Ricardo Costa de Oliveira, já referido na nota (4), cita os pais e a época de José Bernardo Munhoz, de onde inferi que este era tio de FJM, irmão de seu pai Bento Munhoz.      

(8) NEGRÃO, F. -- op. cit., v. I, p. 235-236. No v. VI da “Genealogia Paranaense” (Curitiba, 1950,  p.275), F. Negrão afirma que Antônio José de Carvalho (1791-1861) era filho de Ana Rosa do Espírito Santo e do sargento-mor Antônio José de Carvalho (1757-1813), português, “um dos fundadores da Vila de Antonina”, Juiz Presidente de sua Câmara. O casal Antônio José de Carvalho- Balbina Maria de Assumpção não teve filhos.  Sobre Manoel de Oliveira Cercal e o tenente Bento José de Siqueira, respectivamente maridos de Maria e Francisca, as outras irmãs de FJM, não encontrei informações adicionais na “Genealogia Paranaense”, exceto a que consta no v. V (Curitiba, 1946, p. 243), relativa ao tenente Bento José de Siqueira. Ali se informa que ele era filho de Manoel Dias de Siqueira, nascido por volta de 1762 em S.Francisco, e de Rita Vieira ou Rita Maria do Ó, natural de Paranaguá. E que era neto de Pedro de Siqueira Côrtes e Maria Dias Palhano. Conforme o “Dicionário Histórico-Biográfico do Estado do Paraná”, op cit, p.133, Bento José de Siqueira, em 1852, era proprietário de engenho de mate em Morretes, assim como o era, nesse mesmo ano, Manoel de Oliveira Cercal em Curitiba. Este foi encarregado “de inspecionar e dirigir as obras do desvio da atual passagem da Serrinha pelos Capados, na estrada que segue da capital para os Campos Gerais, mandando-as fazer de modo que se preste à rodagem”, conforme consta do relatório do vice-presidente T. Ribeiro de Rezende de 6 de setembro de 1854, p 47.  Mais tarde, ele é citado em outro relatório, o do vice-presidente Beaurepaire-Rohan de 1º de março de 1856, p. 126, onde se afirma que executou as obras do desvio do caminho para a serra dos Capados antes referidas (esse caminho faz parte do trecho Campo Largo-S.Luís). No mapa nº 1, que consta do volume anexo a esse relatório, ele é novamente mencionado, na condição de inspetor da instrução primária do 12º distrito (Campo Largo). Já exercera funções semelhantes no tempo da 5ª Comarca. Segundo trabalho de F. Negrão, ele é um dos três membros da Comissão de Inspeção das Escolas Públicas e Particulares de Morretes, nomeado pela sua Câmara Municipal em 27 de novembro de 1846. Além de Morretes, o governo da província de S.Paulo também criou tal Comissão em Curitiba, Castro, S.José dos Pinhais, Campo Largo, Palmeira e Paranaguá, sendo um membro nomeado pelo presidente da Província e os outros dois, pela respectiva Câmara Municipal (cf. NEGRÃO, Francisco-- “Memória sobre o Ensino e a Educação no Paraná de 1690 a 1933”- p. 93-126 in “Cincoentenário da Estrada de Ferro do Paraná 1885-1935”. Curitiba: Impressora Paranaense, 1935, p. 102). Manoel de Oliveira Cercal foi nomeado ainda suplente do subdelegado da freguesia de Campo Largo, no termo da Capital, em 1861. E também 2º suplente do juiz municipal do termo de Campo Largo em 1876 (cf relatórios dos presidentes Polidoro Cezar Burlamaque de 15.03.1867, p. 77, e Lamenha Lins, de 15.02.1877, p. 21. A propósito, esses relatórios de governo estão disponíveis no site do Arquivo Público do Estado do Paraná, no seguinte link, acessado em março de 2012: http://www.arquivopublico.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=44).  Como se vê, um membro importante (economicamente) da comunidade era solicitado a desempenhar também papéis de caráter público (no caso, a inspeção de obras, a inspeção da instrução primária, o exercício de funções relacionadas à segurança dos cidadãos ou à magistratura).

 (9) SANTOS, A.Vieira dos --op cit, v. I, p. 124.

(10) cf site http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/4991.pdf  acessado em 7.12.2010

(11) SANTOS, A. Vieira dos – op cit,  v.I, p. 175 e 194    

(12) “Dicionário das Famílias Brasileiras”, op cit, v. II, p. 1578

(13) cf. sites www.cadiznet.com  e  www.spain.info  A região sofreu outro terremoto mais recentemente, pois o “Dezenove de Dezembro” de 15.02.1885-p.2 discorre sobre um terremoto ocorrido na Espanha, responsável pela morte de mais de 3.000 pessoas. O “Futuro”, de Paranaguá, refere-se a uma subscrição que se realizou na cidade em favor das vítimas do terremoto, que afetou “os povos da Andaluzia”. Bento Munhoz da Rocha foi o que mais contribuiu. Esse sobrinho de CJM era então “sócio da importante casa comercial de Ildefonso P. Correia & Cª” (cf o “Futuro”, edições de 28.02.1885- p. 3; de 7.03.1885- p. 3; e de 4.08.1885- p. 3, disponíveis em microfilme na Divisão de Documentação Paranaense da Biblioteca Pública do Paraná- “Periódicos Diversos-13”).   

(14) VIANNA, Hélio—“História do Brasil”. S.Paulo: Ed.Melhoramentos,1977- 13ª ed. revista e atualizada, p.312; “Enciclopédia dos Municípios Brasileiros”. XXXI Volume (Paraná). Rio de Janeiro: IBGE, 1959- p. 368 (histórico do município de Paranaguá)

(15) SANTOS, A. Vieira dos – op cit,  v.I, p.163-4

(16) NEGRÃO, F.- “Genealogia...”- op. cit., v. I, p. 262-263. A data de nascimento de Caetano José Munhoz, citada por F.Negrão, é a mesma que consta na lápide de seu túmulo no Cemitério Muncipal S.Francisco de Paula, em Curitiba (consta aí também a data do falecimento: 25 de julho de 1877).      

(17) Informações sobre a data e padrinhos de batismo de Maria Lícia me foram fornecidas pela Mitra Diocesana de Paranaguá.  Essa mesma fonte informa que dois dias antes desse batismo, em 27 de junho de 1829, houve o de Agostinho, outro filho do casal tenente Florêncio José Munhoz - Luíza Lícia de Lima.  Uma explicação possível seria que ele e Maria Lícia fossem gêmeos, mas Agostinho, de saúde mais precária (por isso seu batismo foi antecipado), não sobreviveu. Ou então o batismo desse filho do casal simplesmente demorou para ocorrer. De qualquer forma, não deve ter sobrevivido, pois seu nome não consta na “Genealogia Paranaense” de F. Negrão, nem é citado por Vieira dos Santos, ao contrário dos outros filhos de FJM.

(18) Informações sobre a data do casamento de Maria Lícia e os pais de seu marido me foram fornecidas pela Mitra Diocesana de Paranaguá. 

(19) MÜLLER, Daniel Pedro—“Ensaio d’um Quadro Estatístico da Província de São Paulo”. S.Paulo: Governo do Estado, 1978- 3ª ed fac-similada (a ed original é de 1838)- p. 120-121

(20) WESTPHALEN, Cecília Maria -- “Porto de Paranaguá, um Sedutor”- op cit, p.177-8

(21) Ibid., p.216

(22) SANTOS,  A.Vieira dos-- op. cit., v.I, p. 157

(23) WESTPHALEN, C.M. – “Porto de Paranaguá, um Sedutor”- op. cit., p.230

(24)  Ibid., p.230

(25)  Ibid., p.37

(26)  Ibid., p.233

(27)  Ibid., p.234

(28)  Ibid., p.235

(29)  Ibid., p.236

(30)  Ibid., p.236 e 238

(31)  Ibid., p.182; ver também nota 30, na p. 190

(32)  Ibid., p.241

(33) Apud WACHOWICZ, Ruy Christovam—“História do Paraná”. 6ª. ed. Curitiba, Ed. Gráfica Vicentina, 1988- p.136

(34)  WESTPHALEN, C.M. – “Porto de Paranaguá, um Sedutor”- op. cit., p. 50;  SANTOS, A.Vieira dos-- op. cit., v.I, p. 289 e 293.

(35) NASCIMENTO JÚNIOR, Vicente—“História, Crônicas e Lendas”. Paranaguá: Prefeitura Municipal, 1980, p. 171.

(36)  SANTOS, A.Vieira dos--  op cit, v. I, p. 159, 173, 177, 178, 179, 217, 373 

(37) NEGRÃO, Francisco—“Memória sobre o Ensino e a Educação no Paraná de 1690 a 1933”- p. 93 a 126- in “Cincoentenário da Estrada de Ferro do Paraná 1885-1935”- op cit, p.103.    

(38) SANTOS, A.Vieira dos -- op. cit., v. II, p. 12

(39) SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v. II, p.37. Além do tenente FJM, também constam nessa “Sinopse” os nomes de Bento José Munhoz, Pedro Antônio Munhoz e José Bernardes (sic) Munhoz, possivelmente o pai e tios de FJM. Consta ainda aí o nome de Antônio José de Carvalho, cunhado de FJM. Quanto a Pedro Antônio Munhoz, a Mitra Diocesana de Paranaguá me informou que no livro próprio consta o registro do batismo, em 28 de abril de 1828, de Joaquim, filho de Pedro Antônio Munhoz, natural de Paranaguá, e de Anna Lourença Munhoz, natural de Cananeia.   

(40) SANTOS, Antônio Vieira dos—“Memória Histórica Chronologica Topographica e Descriptiva da Villa de Morretes e do Porto Real vulgarmente Porto de Çima”. Tomo 1º.  Curitiba: Museu Paranaense, 1950 (o original é de 1851)- p. 85. Na “Memória Histórica de Paranaguá”, op cit, v.I, p. 238-9, consta transcrição dessa mesma ata da vereança realizada em 18 de novembro de 1820 mas não arrola os nomes das pessoas presentes na reunião que assinaram a ata, ao contrário daquela “Memória” de Morretes e Porto de Cima. A propósito, essa menção a FJM, do ano de 1820, é a mais antiga feita a ele na obra de Vieira dos Santos. E a citação mais antiga de um membro da família é a de Bento Munhoz, na relação dos cidadãos parnanguaras “que serviram nos cargos de governança desde 1750 a 1800” (cf. Santos, A. Vieira dos-- op cit, v. I, p. 205).  

(41) SANTOS, A. Vieira dos—op cit, v. I, p.242.

(42) José Bernardo Munhoz, como vimos, era tio de FJM. Outro tio dele chamava-se Joaquim Antônio Munhoz, a julgar pelo registro no “Livro do imposto predial de Paranaguá”, de 1807 (hoje no Arquivo da Câmara Municipal de Curitiba), onde consta o seguinte: “Travessa do Fonil. Nº 266 Jozé Bernardo Munhoenz, alugada ao irmão Joaquim Antonio Munhoenz. $ 346. Mas Vieira dos Santos informa que um Joaquim Antonio Munhoz, supostamente esse tio de FJM, faleceu no período 1821-2 (v. adiante, p. 36 do texto), logo ele não poderia assinar a manifestação da Câmara de Paranaguá, que é de 23 de março de 1823. Quem a assina é, talvez, um filho seu  homônimo. Por outro lado, no “Livro do imposto predial de Paranaguá” ainda constam estes registros que nos interessam: “Nº 267- Alferes Joaquim Antonio Munhoenz, alugado a Luís Ignácio de Oliveira. $ 346. Em nome desse alferes há também o registro de outro imóvel: o de nº 76 na Rua do Chargo. Quanto a José Bernardo, além do já citado, constam mais dois imóveis na “Travessa do Fonil”: os de nº 264 e o de nº 275.  Como se vê, cada um dos irmãos detinha um certo patrimônio em imóveis urbanos. Essas informações foram disponibilizadas por Ricardo Costa de Oliveira no seguinte site, acessado em 19.05.2011:  http://www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=233633&fview=e

(43) SANTOS, A. Vieira dos—op cit, v. I, p.376-377.

(44) SANTOS, A. Vieira dos—op cit, v. I, p. 244 e 380-381. Lê-se aí que o projeto de Constituição, sobre bases dadas por D. Pedro I, “fora redigido por seus Ministros e Conselheiros do Estado” e é considerado, nessa representação da Câmara de Paranaguá, “obra da alta sabedoria e liberalismo de V. Majestade, e de seu iluminado Conselho e Ministério”. Também é signatário da representação, além do cap. Joaquim Antonio Munhoz e de FJM, Bento José de Siqueira, cunhado deste último.

(45) “Constituições do Brasil” (org. por Fernando H. Mendes de Almeida). São Paulo: Ed. Saraiva, 1961- 3ª. ed., p. 20-21 e p. 45. O volume contém a íntegra da lei de 1º de outubro de 1828, que vigorou durante todo o Império, até 1891, como esclarece nota do organizador da coletânea. Segundo ele, antes dessa lei, os municípios se regiam pelas Ordenações do Reino. 

(46) SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v. I, p. 249-250

(47) SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v. II, p. 138. O jornal “Dezenove de Dezembro” também menciona outros membros da família Munhoz, residentes em S.José dos Pinhais, que são aparentemente de “status” social inferior ao de FJM e familiares. E o mesmo jornal menciona, com frequência, um certo Fidêncio Antônio Munhoz, morador na Capital, que ocupava o cargo de porteiro, inicialmente do Liceu de Curitiba e depois, da Tesouraria de Fazenda, e que teve uma participação de certo destaque na vida comunitária curitibana. Sobre ele, ver o cap. 8 desta monografia.  

(48) Baltazar Carrasco dos Reis, “natural de S.Paulo”, era “homem cheio de serviços à Pátria, não só na defesa de Santos, dos ataques dos inimigos, como também como bandeirante destemido, ao lado de seu pai, irmãos e filhos” (F.Negrão, op. cit., v. I, p. 155). Baltazar foi um dos primeiros povoadores de Curitiba para onde se mudou com sua família em meados do século XVII, tendo obtido carta de sesmaria de terras em 1661 contíguas às de Mateus Leme  (F. NEGRÃO, op. cit.,  v. I,   p. 154).

(49) LEÃO, Ermelino de – “Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná”- v.I. Curitiba: Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico Paranaense, 1994, p. 31.

(50) Agostinho da Silva Vale era filho de Baltazar Veloso e Silva (neto de Baltazar Carrasco dos Reis) e de Antônia de Souza Vale, “natural de Paranaguá, filha do Sargento-mor Manoel do Vale Porto, o fundador da freguesia do Pilar da Graciosa, mais tarde elevada a Vila com o nome de Antonina” (F.NEGRÃO, op. cit., v. I, p. 163). A avó paterna de Agostinho, esposa do Alferes Gaspar Carrasco dos Reis, era, por sua vez, neta do Capitão Povoador de Curitiba Mateus Martins Leme (F. NEGRÃO, op. cit., v. I, p. 157). Marina Lourdes RITTER, em “As Sesmarias do Paraná no Século XVIII”, op cit, p. 225 e 234-235, cita três sesmarias concedidas a Manuel Vale do Porto: uma  em Antonina no ano de 1713 e duas outras, nos Campos de Piraquara e Canguiri, em  1710 e 1713. Seria o avô materno de FJM, Manoel Ignacio do Vale, seu parente?

(51) NEGRÃO, F. –op. cit., v. I, p. 234 

(52) COSTA, Samuel Guimarães da – “O Último Capitão-Mor 1782-1857”. Curitiba: Scientia et Labor Edit. UFPR; Paranaguá, Prefeitura Municipal, 1988, p. 79  

(53) COSTA, S.G. da – op. cit., p. 36  

(54) COSTA, S.G. da – op. cit., p. 37. A propósito, Júlio Moreira em “Caminhos das Comarcas de Curitiba e Paranaguá”, Curitiba: Imprensa Oficial do Paraná, 1975, v.2, p. 494, transcreve trecho de outra obra de Vieira dos Santos (“Memória Historica, Chronologica,Topographica e Descritiva da Villa de Morretes e do Porto Real vulgarmente Porto de Çima”, ed. Museu Paranaense,1950, p.51-2) em que Agostinho da Silva Valle é mencionado. Por ele, se obtém a informação de que Agostinho era negociante em Morretes quando foi a S.Paulo em 1777 e arrematou o “contrato real das passagens das canoas do (rio) Cubatão” para o triênio 1778-1780. Inicialmente, o arrematante cobrava tanto os fretes das canoas como dos gêneros. Depois, o Ouvidor da Comarca estabeleceria o valor dos fretes para cada gênero (ib. p.494). Em 1778, Agostinho e o alferes José da Costa Pinto são multados pelo juiz ordinário, certamente por não cumprirem aquela tabela de valores de frete. Recorrem dessa multa em 1784. A mesma fonte menciona ainda que Agostinho arrematou novamente o contrato para o triênio 1781-1783 em sociedade com Manoel Gonçalves Guimarães, “homem de bens e fortuna”. A sociedade entre eles dura um ano e meio, após o que Manoel Gonçalves Guimarães é substituído por Manoel Lourenço Pontes. Os próximos contratos (até 1800) serão arrematados por Manoel Gonçalves Guimarães, exclusivamente. No v.1, p. 49, Júlio Moreira transcreve ofício, de 1786, do Ouvidor e Corregedor da Comarca Francisco Leandro de Toledo Rendom, dirigido à Câmara de Paranaguá, em que Agostinho é mencionado como o encarregado de consertar o caminho do Cubatão (= Caminho de Itupava). O mesmo ofício manda que Agostinho seja pago pelas despesas em que incorreu (ib., p.50).

(55) SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v. II, p.304

(56) COSTA, S.G. da – op. cit., p. 153

(57) PENA, Eduardo S.—“ O Jogo da Face”- op cit, passim.

(58) SANTOS, A.Vieira dos—op cit, v.I, p. 81

(59) NEGRÃO, F. – op. cit., v. I, p. 235 

(60)  LEÃO, E. de – “Dicionário Histórico e Geográfico ...”- op. cit., v. II, p. 892

(61) LEÃO, Ermelino de – “Antonina-factos e homens”. Antonina: Prefeitura Municipal, 1926 (ed. fac-similar da Secretaria de Estado da Cultura, 1999)- p. 205 (in Cap. XXIV- “Apontamentos históricos de várias localidades do distrito da Vila Antonina e outros municípios, coligidos no cartório de Antonina”)

(62) Apud COSTA, S.G. da – op. cit., p. 145

(63) Nas legendas dos mapas são citadas as obras de onde eles provieram.   

(64) Cf.verbete “braça” no “Novo Dicionário Aurélio”, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. 1ª ed. (15ª impressão). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.  

(65)  NEGRÃO, F.  – op. cit., v.I, 164    

(66)  SANTOS, A. Vieira dos—op cit, v.I, p. 260

(67)  WESTPHALEN, C.M. – op. cit., p. 191

(68)  WESTPHALEN, C.M. – op. cit., p. 165

(69)  WESTPHALEN, C.M. – op. cit., p. 241 e 286 (nota 65)

(70) ROMANEL, Maria Cecília Trevisan Scherner e SCHERNER, Maria Luíza Trevisan—“Álbum de Memórias- A trajetória das Indústrias no Paraná”. Curitiba: Editora Univer Cidade, 2007- p.16

(71)  SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v. I, p. 251

(72)  KOSHIBA, Luiz e PEREIRA, Denise Manzi Frayze—“História do Brasil”- 6ª ed- São Paulo: Atual, 1993- p. 186-8  

(73)  SANTOS, A. Vieira dos— op cit,  v.I, p.251-252.    

(74)  SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v. I, p. 251

(75) VAINFAS, Ronaldo (org.)- “Dicionário do Brasil Imperial (1822-1889)”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002- p.563-4 

(76)  KOSHIBA, L. e PEREIRA, D. M. F.— op cit, p. 188  

(77) LEÃO, Ermelino de -- “Dicionário Histórico e Geográfico...”-op. cit., v. V, p. 2050-2053

(78) Apud SANTOS, A. Vieira dos— op cit,  v.I, p.265

(79) “Dicionário Histórico-Biográfico do Estado do Paraná”, op cit, p. 105-6 (são autoras dos verbetes desse dicionário: Cecília Maria Westphalen, Altiva Pilatti Balhana, Cassiana Lacerda Carollo, Lina Benghi e Marta Morais da Costa)   

(80)  SANTOS, A.Vieira dos— op cit,  v.I, p.288. Cf também p. 275-6

(81)  SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v. II, 304

(82) SCHWINDEN, Antônia – “Leão Júnior S.A.: empresa centenária”. Curitiba: Leão Júnior S.A., 2001  - p.7-8

(83) SANTOS, A. Vieira dos –op. cit., v. II, p. 157 e p. 161 (seu nome consta aí escrito como Florêncio José Munhões)

(84) SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v. II, p.97-102 (“Mapa nº 11- Provedores, escrivães, procuradores e tesoureiros que têm servido na Irmandade do Santíssimo Sacramento da Cidade de Paranaguá desde o ano de 1762 inclusive ao de 1850”. Os membros da família Munhoz citados nesse mapa são: Cap. Joaquim Antonio Munhoz, Ten. Florêncio José Munhoz, Cap. Pedro Antonio Munhoz e José Bernardo Munhoz, sendo o primeiro o de participação mais antiga na Irmandade, pois já em 1799-1800 ocupava o cargo de procurador)
 
(85) Cf. “Dicionário Histórico-Biográfico ...”- op. cit., p. 217

(86) SANTOS, A.Vieira dos—  op cit, v. I, p. 230

(87) SANTOS, A.Vieira dos  -- op. cit., v. I, p.377

(88) SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v. II, p. 67-68

(89) Cf. site http://www.arquivonacional.gov.br (artigo: “Irmandades: casas de Misericórdias”)

(90) Cf. site http://www.dichistoriasaude.coc.fiocruz.br/iah/  (verbetes: Santa Casa da Misericórdia da Bahia e do Rio de Janeiro)- acessado em março de 2012

(91) LEÃO, E. de – “Dicionário Histórico e Geográfico...”- op. cit.,   v. II, p. 878

(92) Cf. artigo “A Irmandade de Misericórdia em 1835-1935” por Nascimento Júnior in “Santa Casa de Misericórdia de Paranaguá (1835-1935)- Poliantéia Comemorativa da Fundação e do 1º Centenário, em 8 de Dezembro de 1935”, p. 5 

(93) Cf.verbete “hierarquia” no “Novo Dicionário Aurélio”, op cit.

(94) SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v.II, p. 294 

(95) PRADO JR, Caio—“Formação do Brasil Contemporâneo”. 14ª. ed. -São Paulo: Brasiliense, 1976, p. 310-313. Na p. 306, o autor afirma que a capitania se dividia em comarcas e as comarcas em termos, com sedes em vilas ou cidades. Os termos dividiam-se em freguesias, “circunscrição  eclesiástica que forma a paróquia, sede de uma igreja paroquial, e que servia também para a administração civil”.

(96) VAINFAS, Ronaldo (org.)- “Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808)”. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001- p. 396

(97) AMARAL, Antônio Barreto do—“Dicionário de História de São Paulo”.São Paulo: Governo do Estado, 1980- p. 112 e 324   

(98)  SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v.II, p. 293

(99) “Dicionário Histórico- Biográfico do Estado do Paraná”, op cit, p. 97-98; BOUTIN, Leônidas—“Breve História de Paranaguá”. Paranaguá: Prefeitura Municipal, 1994- p. 10.

(100) MARTINS, Romário – “História do Paraná”. Curitiba: Edit. Guaíra Ltda., s/d- 3ª. ed., p. 231; SANTOS, A.Vieira dos – op. cit., v.I, p.239-240; 363 e seg.

(101) SANTOS, A. Vieira dos— op cit, v. I, p. 240

(102) MARTINS, R. – op. cit., p. 230

(103)  SANTOS, A. Vieira dos— op cit, v. I, p. 244, 384.

(104) Cf. “Dicionário Histórico-Biográfico ...”, op. cit., p. 332-333

(105)  SANTOS, A.Vieira dos—op cit. v. I, p. 315-320

(106) DD de 29.04.1854- p. 5

(107) DD de 30.09.1854- p.2. Seu requerimento ao presidente da província, pedindo demissão desse cargo, está no Arquivo Público do Estado (assim datado: “Paranaguá, 19 de agosto de 1854”). Ele diz aí: “Não me sendo possível exercer o cargo de 5º suplente de Delegado quando me competir, por ser homem velho e mto. doentio, motivo porque peço a V.Exa. demissão de dito cargo”.

(108) Informação fornecida pela Mitra Diocesana de Paranaguá.

(109) Informação fornecida pela Mitra Diocesana de Paranaguá. FJM não foi o único membro da família Munhoz a se vincular à Ordem Terceira de S. Francisco. Vieira dos Santos, no capítulo a ela dedicado em sua Memória História de Paranaguá, refere-se a outros membros, citados a seguir:  o “irmão síndico” Bernardo José Munhoz, que em 1812 recebeu os valores auferidos com a venda de escravos pertencente à Ordem Terceira (a escrava Maria, com seu filho Francisco, a escrava Bona, com seu filho Claudino, e o escravo Jacinto); o “síndico” José Bernardo Munhoz (a mesma pessoa?), que em 1816 prestou contas à congregação de mesa da Ordem e o “irmão” Antonio José Munhoz, que em 1820 recebia da Ordem um auxílio financeiro diário “por impossibilidade de doenças e não poder trabalhar” (cf SANTOS, A.Vieira dos- op cit, v. II, p. 136-138).     

(110) VAINFAS, R. (org.)- “Dicionário do Brasil Colonial”, op cit, p. 317    

(111) “Dicionário Histórico-Biográfico ...”, op. cit., p. 217; PARANÁ-“Espirais do Tempo: Bens Tombados do Paraná”. Curitiba: Secretaria de Estado da Cultura, 2006- p. 240; NASCIMENTO JÚNIOR, Vicente—“História, Crônicas e Lendas”, op cit, p. 287.






3.3- CJM: nascimento e infância em Paranaguá


  CJM vem ao mundo, como se viu, no seio de uma família de posses. Alcides Munhoz informa que ele nasceu em Paranaguá a 17 de junho de 1817, e que ali “educou-se e viveu até a sua maioridade. Moço, mudou-se para Curitiba, onde iniciou a vida no comércio exportador de erva-mate” (1).  

Sobre a infância e adolescência de CJM em Paranaguá, onde viviam seus pais, não obtive nenhuma informação. Sua educação pode ter sido ministrada por algum professor particular contratado para tanto, ou por um professor mantido pelo governo do Império. 

Segundo Vieira dos Santos (2), quando CJM nasceu, a cadeira de professor de primeiras letras de Paranaguá estava vaga, o que ocorreu no período 1815-19. Como sua remuneração fora rebaixada de 120 para 80 mil réis anuais (3), não havia interessados em ocupá-la. Em 1820 a Câmara de Paranaguá fez uma representação ao rei D.João VI pedindo uma solução para o problema.  

Só em 1826 a Câmara, autorizada pelo presidente da Província de S.Paulo, abrirá concurso para o preenchimento daquela cadeira, com a remuneração de 120 mil réis. Apresentou-se então Hildebrando Gregoriano da Cunha Gamito que, submetido a uma banca de examinadores, foi aprovado e tomou posse no cargo em 27 de maio de 1827. Gamito exercerá tais funções até falecer, em 1849.  Considerando que CJM tinha então 9 anos (completaria 10 em 17 de junho de 1827), ele pode ter sido aluno do professor Gamito. Antes disso, como estava vago esse cargo de professor público, a alternativa que restava aos pais interessados em que seus filhos recebessem a educação primária (“aprender a ler, escrever e contar”) seria recorrer a professores particulares. Vieira de Sousa refere-se neste caso ao prof. Francisco Félix da Silva, que abriu suas aulas particulares em decorrência daquela vacância. Assim, CJM pode ter sido também aluno dele. Outra possibilidade para os pais seria contratar Lourenço Antônio de Almeida, que exercia, no período, as funções de professor de gramática latina (ele lecionou em Paranaguá de 1823 a 1828 ou 1829). A propósito, o professor Lourenço integrou a banca que examinou Hildebrando Gamito antes referida.

Com CJM pode ter acontecido o mesmo que com o jovem Agostinho Ermelino de Leão, futuro desembargador, embora este tenha nascido mais tarde, em Paranaguá, no ano de 1834. Segundo seu filho, ele aí “cursou aulas de primeiras letras na escola do mestre Felix” (4).

Em 1831 a Câmara informava ao presidente da Província de S.Paulo a sutuação do ensino em Paranaguá: a escola pública do professor Hildebrando G.C. Gamito tinha 53 alunos e a escola particular do tenente Francisco Félix da Silva, 48.

A educação da época reconhecia a validade de castigos físicos, o que seria aceito inclusive pela legislação, posteriormente. Vieira dos Santos cita a lei provincial nº 35, de 18 de março de 1836, que afirma em seu parágrafo único: “Os professores de primeiras letras poderão castigar moderadamente os seus discípulos quando as penas morais forem ineficazes.”   
              
  Seguramente CJM recebeu educação religiosa e fez a 1ª. Comunhão, considerando o costume da época e o fato de seus pais serem católicos. Aliás, a religião católica, no tempo do Império, não era separada do Estado. Assim, o ensino oficial necessariamente implicava ensino religioso. Por outro lado, muitos dos que estudavam com o professor de gramática latina encaminhavam-se para a carreira eclesiástica. Mas esse não foi o caso de CJM que desde cedo voltou-se   para a vida prática, pois seu nome está associado à instalação de um dos primeiros engenhos de erva-mate em Curitiba, em 1834, quando tinha apenas 17 anos.

Conforme carta de CJM, transcrita em “Folhas Cadentes” (5), ele desejava muito que seu filho Alfredo, então estudante em Petrópolis, se tornasse “Doutor em Leis”, talvez uma compensação por não ter ele próprio se formado em Direito, embora viesse a exercer aqui, por muitos anos, a função de “juiz municipal substituto”, o que era possível pela legislação da época.

Vale lembrar que a primeira faculdade de Direito instituída no Brasil foi a de S.Paulo, em 1827. No ano seguinte, fundou-se a de Olinda/Recife (6).   

A julgar pelo tratamento que lhe era dado, com o seu nome no diminutivo (“Coronel Caetaninho”), CJM devia ser de estatura baixa e compleição franzina. Encontrei dois retratos dele em minha pesquisa. Um, o que consta em “130 Anos de Vida Parlamentar Paranaense”, de Maria Nicolas. Outro, mais velho, foi publicado na “Revista Paulista de Indústria” v. 3, nº 17, de 1953 (edição especial: “O Paraná e suas Indústrias”), ano em que se comemorou o centenário do Paraná  e seu bisneto era o governador do Estado. Infelizmente, nenhuma das duas publicações informam como foram obtidos esses retratos de CJM.


NOTAS


(1) MUNHOZ, Alcides—“Folhas Cadentes”, op cit, p.11.

(2) SANTOS,  A. Vieira dos—“Memória Histórica de Paranaguá”, op cit- v.I, p.239, 246, 270, 375, 376, 396;  v. II, p.289, 291 

(3) A remuneração era anual, conforme NEGRÃO, Francisco—“Memória sobre o Ensino e a Educação no Paraná de 1690 a 1933” , op cit, p.103. 

(4) LEÃO, Ermelino de -- “Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná”, op cit- v. VII, p. 5.

(5) MUNHOZ, Alcides- op. cit., p. 19

(6) FAUSTO, Bóris—“História do Brasil”- 6ª. ed. S.Paulo: Editora da Universidade de S.Paulo: Fundação do Desenvolvimento da Educação, 1998- p. 237. 


Curitiba por Debret- 1827 (Fonte: www.gilsoncamargo.com.br/blog)


3.4- Curitiba em 1834


Para se ter uma idéia de como se apresentava Curitiba na época em que CJM veio para cá, vou recorrer a Saint-Hilaire, citado por Octavio Ianni em “As Metamorfoses do Escravo”. Ianni afirma nesse livro que, segundo o naturalista francês, que percorreu a região alguns anos antes, o distrito de Curitiba possuía uma população de 11 mil habitantes em 1818, dos quais aproximadamente 15% eram escravos.

E prossegue Octavio Ianni:

    Nessa época a vila de Curitiba reúne 220 habitações pequenas e cobertas de telhas, cujos habitantes dispersam-se em atividades diferentes, especialmente agropecuárias. “No decorrer da semana, Curitiba não é menos deserta que a maior parte das vilas do interior do Brasil, diz Saint-Hilaire; quase todos os seus habitantes são, como em muitos outros lugares, agricultores que não ocupam as suas casas senão aos domingos e nos dias festivos, atraídos pelas cerimônias religiosas”. Uma parte do contingente ativo dessa população distribui-se em 948 agricultores, 31 comerciantes, 205 assalariados, e 50 tropeiros, além dos escravos e escravas ocupadas em atividades agrícolas, de criação, artesanato urbano, serviços domésticos etc. (1)


Essas 220 habitações distribuíam-se por algumas poucas ruas mal alinhadas que ligavam o Largo da velha Matriz, ainda sem as duas torres, às regiões mais afastadas (2). A vila de Curitiba estendia-se entre dois rios, o Ivo e o Belém, este cortado pela Estrada da Marinha. É junto a essa estrada, e às margens do rio Belém, que CJM estabelecerá o seu engenho de mate (v. mapa da cidade, datado de 1857).    
Segundo o Quadro Estatístico de D.P.Müller, de 1838, toda a 5ª. Comarca da província de São Paulo possuía então 38.223 habitantes.
  
O distrito de Paranaguá, 8.891 hab., sendo 18% escravos, e o de Curitiba, quase o dobro, 16.157 hab, sendo 12,5% escravos. Ambos representavam, respectivamente, 23% e 42% da população da Comarca, que abrangia os termos de Castro, Curitiba e Paranaguá (3).  

  O distrito de Curitiba abrangia, além da vila de Curitiba, as freguesias de S.José dos Pinhais e de Palmeira, assim como as capelas de Votuverava (hoje Rio Branco do Sul) e Campo Largo. Consta na obra citada:  “O território desta vila (a de Curitiba) para o lado do mar, e principalmente para o interior do lado de Oeste tem ainda sertões incultos, e desconhecidos” (4).  

  Dentre os produtos obtidos no distrito de Curitiba, Müller cita erva-mate, café, arroz, farinha de mandioca, feijão, milho, fumo, trigo, toucinho e ouro. Refere-se ainda à criação de gado vacum, lanígero, cavalar, muar e à criação de porcos (5).  

  Quanto às “artes e ofícios”, constata a existência de 11 carpinteiros, 5 oleiros, 1 pedreiro, 8 ferreiros, 2 seleiros, 1 fabricante de coxenilhos (6), 10 alfaiates, 12 sapateiros, 8 ourives, e 1 músico (7).

  Com relação à Guarda Nacional, a situação era a seguinte: Infantaria: 1 batalhão, 8 companhias, 750 praças. Cavalaria: 1 esquadrão, 2 companhias, 234 praças (8).

  No termo de Curitiba havia 5 distritos de paz: o 1º era o da vila de Curitiba (com 24 quarteirões). Os outros eram os de S.José dos Pinhais, Palmeira, Campo Largo e Votuverava. O termo  possuía 1 juiz municipal, 1 juiz de órfãos e 5 juízes de paz (9).  

  Quanto às confrarias e irmandades, Müller menciona a Ordem 3ª. de S. Francisco das Chagas,  a do SS. Sacramento, a de N.Sra. da Luz, a de S.Miguel, as de N.Sra. do Rosário e a de S.Benedito (10). 

  E com relação à instrução pública, afirma que a vila de Curitiba possuía 4 escolas de 1as. letras e 129 discípulos (11).  

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  Em decorrência da lei nº 18, de 11 de abril de 1835, aprovada pela Assembleia Legislativa da província de São Paulo, toma posse o primeiro Prefeito de Curitiba, em 27 de julho do mesmo ano, sendo escolhido para exercer esse cargo o comerciante José Borges de Macedo (1791-1851), nascido em Castro mas radicado na vila de Curitiba, estabelecido na rua Fechada (atual José Bonifácio). Ele exerce o mandato até 24 de março de 1838, quando a mesma Assembleia decide revogar a lei antes citada (Curitiba só teria prefeito novamente na República, a partir de 1892). Em 1841, Borges de Macedo requer uma “carta de data” de terreno próximo à “ponte do Ivo” (região da atual praça Zacarias). Constrói aí uma casa confortável para sua família, na esquina das atuais ruas Des. Westphalen e Mal. Deodoro, tornando-se assim vizinho de João Gonçalves Franco e Manoel de Oliveira Franco, respectivamente sogro e cunhado de CJM, ali também residentes, como veremos (aliás, o próprio CJM também ali residirá) (12).


Em 1835 estoura a Revolta dos Farrapos, que causa maior apreensão na Comarca a partir de 1838, quando os revoltosos se apoderam de Lages. O governo imperial decide então reforçar a defesa de Rio Negro, que seria o próximo núcleo urbano a ser conquistado, ao avançarem para o norte, via Estrada da Mata. Envia para lá tropas de linha comandadas pelo general Pedro Labatut, que desembarca em Antonina e sobe a Serra do Mar pela Estrada do Itupava, enfrentando as maiores dificuldades (13).  


NOTAS


(1) IANNI, Octavio—“As Metamorfoses do Escravo”- op cit, p. 94.
(2) MACEDO, Heitor Borges de—“O Lídimo Varão: biografia do primeiro prefeito de Curitiba”. Curitiba: Editora da Universidade Federal do Paraná,  1984. Ver  aí os desenhos da primeira igreja Matriz e da segunda, após a construção das duas torres, nas p. 13 e 17. As torres foram concluídas no final da década de 1850. Mas por causa de problemas estruturais, essa igreja foi demolida em 1876 e em seu lugar construiu-se a atual Catedral de Curitiba (cf DESTEFANI, Cid Deren—“A Cruz do Alemão”. Curitiba, s.d., p.27-29).   

(3) MÜLLER, Daniel Pedro—“Ensaio d’um Quadro Estatístico da Província de São Paulo”- op cit, p. 143-144. Notar que a abrangência do “distrito” de Curitiba não é a mesma que a da “comarca” de Curitiba antes citada (em 3.2- Origens familiares).  O distrito exclui a Vila Nova do Príncipe e sua freguesia anexa, Rio Negro.

(4) Ibid., p. 74

(5) Ibid., p.128

(6) Coxinilho: “Tecido de lã, tinto de preto, que se põe sobre a sela dos cavalos” (cf. LEÃO, Agostinho Ermelino de—“Índice Alfabético Paranaense”, que integra o “Dicionário Histórico e Geográfico do Paraná” de seu filho Ermelino de Leão (op cit, v. VII, p. 72). Segundo o dicionário Houaiss, o termo decorre do espanhol platino: cojinillo.

(7) MÜLLER, D.P.—“Ensaio d’um Quadro Estatístico da Província de São Paulo”, op cit, p.243

(8) Ibid., p. 225

((9) Ibid., p. 74

(10) Ibid., p. 254

(11) Ibid, p. 265

(12) MACEDO, Heitor Borges de—“O Lídimo Varão”, op cit, p. 18, 19, 21 e 27

(13) NEGRÃO, Francisco—“Efemérides Paranaenses”- Curitiba: Circulo de Estudos “Bandeirantes”, 1º volume (1949):  p.69-70; 88-89; 159-160; 235-236; 239.  2º volume (1954): p. 576, 636, 637